Nova Délhi/Tóquio, 18 de março de 2026 – O bloqueio do Estreito de Ormuz, ponto de passagem de cerca de 20% do petróleo mundial, já provoca escassez de combustíveis em praticamente toda a Ásia, região que recebe 80% do óleo que cruza aquele corredor marítimo.
A recusa do Irã em liberar plenamente a rota elevou custos de importação, paralisou cadeias de suprimento e levou governos a adotar medidas de emergência semelhantes às empregadas durante a pandemia de COVID-19.
Na Índia, que compra no exterior quase 90% do petróleo bruto e cerca de metade do gás natural que consome, os efeitos chegaram às cozinhas. A redução das importações de gás liquefeito de petróleo (GLP) obrigou restaurantes a enxugar cardápios e famílias a buscar alternativas como fogões de indução. Dois navios petroleiros conseguiram atravessar Ormuz rumo a portos indianos nesta semana, mas a maior parte da carga deve ser destinada à indústria de fertilizantes, deixando o mercado doméstico desabastecido.
Ontem, o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Narendra Modi conversaram por telefone pela primeira vez desde o início do conflito, em 28 de fevereiro. Modi afirmou que manter o Estreito de Ormuz “aberto, seguro e acessível é essencial para todo o mundo”. Mais de 40% do petróleo importado pela Índia passa pelo estreito.
Em movimento inédito desde 2019, a Reliance Industries – dona da maior refinaria do planeta – adquiriu 5 milhões de barris de petróleo iraniano após os Estados Unidos suspenderem sanções temporariamente.
Japão e Coreia do Sul, altamente dependentes do Oriente Médio para suprir mais de 90% de suas necessidades de petróleo, enfrentam forte aumento de custos. Tóquio já iniciou a liberação de estoques estratégicos, enquanto Seul avalia ações semelhantes e prepara pacotes de apoio às indústrias, que reduziram ritmo de produção.
No Sul da Ásia, greves e protestos atingem Índia, Bangladesh e Filipinas. Rumores em redes sociais alimentam compras de pânico e, em algumas cidades indianas, a polícia foi deslocada para postos de combustível. Bangladesh impôs racionamento severo, e o Sri Lanka adotou forte programa de austeridade.
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A Filipinas tornou-se o primeiro país a decretar emergência energética nacional, alertando para “risco iminente de colapso no fornecimento”. O arquipélago importa 98% do petróleo consumido.
Com o gás caro e escasso, vários governos voltaram a incentivar o uso de carvão e lenha. No mercado indiano, a venda de equipamentos de cozimento por indução disparou. Paralelamente, Japão e Coreia do Sul aceleram planos para ampliar a participação da energia nuclear.
Para conter a alta de preços, diversas nações liberaram gasolina e diesel de reservas internas, flexibilizaram padrões de combustível e ampliaram a produção doméstica. A China, por sua vez, adiou aumentos programados nos preços dos combustíveis para “reduzir a pressão sobre a população”.
“Qualquer escassez de combustíveis essenciais desencadeia um efeito dominó no continente”, disse o restaurateur indiano AD Singh, sintetizando a preocupação generalizada com a continuidade dos negócios e o custo de vida.