Enquanto as tensões no Oriente Médio mantêm os mercados globais voláteis, grandes alocadores internacionais estão direcionando recursos ao Brasil, apontado como “Latam proxy” para exposição a emergentes. O diagnóstico foi relatado por Lucas Collazo, apresentador do programa Aftermarket, do podcast Stock Pickers, após visitar cerca de 20 gestoras em Nova York, entre hedge funds, private equity, venture capital e real estate.
De acordo com Collazo, a percepção nos Estados Unidos é que Europa perdeu atratividade, China tornou-se “não investível” e a Índia, embora em evidência, é considerada distante e cara. Assim, quando o assunto é mercado emergente, a escolha tem recaído sobre a América Latina — com o Brasil no centro das atenções.
Leonardo Linhares, head de Ações da SPX Capital, confirmou que o conflito no Oriente Médio não reduziu os aportes estrangeiros na B3. “O dinheiro continua entrando. O Brasil tem sido talvez o maior atrator de capital nesse movimento todo”, afirmou.
Para os gestores, o Brasil se beneficia por ser exportador relevante de petróleo, ao contrário de economias da Europa e da Ásia que dependem da importação do insumo. Dessa forma, o impacto da guerra chega ao país mais pela via de expectativas de inflação e política monetária do que por choque direto de oferta.
Outro ponto mencionado são as eleições presidenciais marcadas para os próximos meses em Colômbia, Peru e Brasil, vistas como possíveis catalisadores adicionais para o fluxo de investimentos.
Apesar do otimismo com o Brasil, há preocupação com o mercado global de private credit, que alocou montantes trilionários em dívidas de empresas de tecnologia privadas. A rápida adoção de inteligência artificial (IA) estaria colocando em risco modelos de negócio e avaliações que embasaram esses financiamentos.
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Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased, contou que a equipe de tecnologia da gestora retornou de uma conferência do Morgan Stanley, em San Francisco, com exemplos de disrupção. Segundo ele, a Lyft gastou US$ 1 milhão para desenvolver software interno e, desde então, economiza US$ 3 milhões por mês, reduzindo a receita de fornecedores financiados por private credit.
O sinal de alerta foi reforçado por Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, que comparou o estágio atual do setor ao período de 2005 a 2007, anterior ao colapso do subprime.
Reider avalia que a temporada de balanços que se aproxima pode trazer surpresas positivas, com empresas exibindo margens maiores graças a ganhos de eficiência proporcionados pela IA. “Toda empresa tinha que falar de IA no call de resultado para a ação subir. Agora vai ter que mostrar corte de custo e eficiência de verdade”, disse.
Na visão dos participantes do debate — Collazo, Linhares, Reider e Christian Keleti, CEO da Alpha Key —, o cenário atual se assemelha a um pêndulo que oscila entre guerra e negociação, destruição de valor e ganhos de produtividade, pânico e alívio. “Quando você está muito focado num tema, é hora de dar um passo para trás e tentar ser mais objetivo. O pêndulo vai voltar”, concluiu Reider.