O recente recuo nas cotas de veículos de private debt nos Estados Unidos não configura uma crise sistêmica, mas sim uma correção técnica provocada por fluxo de investidores, avalia Ian Caó, diretor de investimentos (CIO) da Gama Investimentos, braço do Grupo HMC Capital.
No mercado norte-americano, grande parte do crédito privado é estruturada em Business Development Companies (BDCs), empresas listadas que emprestam recursos a médias e grandes companhias fora dos balanços bancários tradicionais. Esses veículos possuem dois indicadores distintos: o Net Asset Value (NAV), que reflete o valor da carteira de empréstimos, e o preço negociado em bolsa.
Segundo Caó, o pânico recente — que derrubou algumas cotas de BDCs em até 30% — decorre de vendas concentradas, enquanto o NAV recuou apenas entre 1% e 1,5%. “Em crédito, a questão-chave é se o tomador paga ou não. Os números mostram que a inadimplência segue controlada”, afirma.
A queda foi acionada por temores de que a inteligência artificial (IA) inviabilize empresas de software presentes nas carteiras dos fundos, segmento que representa de 5% a 20% dos portfólios. O receio levou investidores, sobretudo de varejo, a se desfazerem de posições, gerando o descolamento entre oferta e demanda.
Parte dos recursos em private debt está em fundos evergreen, que permitem retiradas periódicas, normalmente limitadas a 5% do patrimônio por trimestre. Com o aumento dos pedidos de saque para cerca de 11%, esses veículos acionaram o mecanismo de rateio previsto em regulamento, o chamado gate.
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Para o CIO da Gama, o gatilho não indica falta de liquidez nem problemas de solvência. “O produto nasceu com horizonte de longo prazo. A limitação protege o próprio investidor, pois os empréstimos têm vencimentos médios de dois anos”, explica.
O volume aplicado em private debt cresceu de forma acelerada na última década, atraindo trilhões de dólares e comprimindo spreads a níveis historicamente baixos. Esse ambiente, combinado à maior transparência proporcionada pela listagem dos BDCs, torna o segmento mais suscetível a narrativas de mercado, observa Caó.
Apesar do estresse nos preços, o executivo não identifica deterioração relevante nos fundamentos das carteiras. “Quando se oferece liquidez a um ativo que antes não tinha, o valor em bolsa reage às manchetes. No fim, o que importa é se o devedor honra ou não a dívida — e, até agora, os indicadores não apontam para uma piora consistente”, conclui.