A rápida adoção de medicamentos injetáveis à base de GLP-1 para perda de peso, como semaglutida e tirzepatida, está reorganizando o mercado de cannabis de US$ 40 bilhões nos Estados Unidos. Executivos e especialistas do setor relatam que varejistas vêm ajustando linhas de produtos diante de alterações no comportamento dos consumidores.
Em fóruns on-line, usuários dessas “canetas emagrecedoras” mencionam redução da compulsão alimentar e incerteza sobre como os fármacos afetam a tradicional “larica” provocada pela maconha. Para acompanhar essa demanda, lojas como a Stoops NYC, em Nova York, passaram a sugerir comestíveis, vaporizadores ou tinturas de baixa dosagem a clientes que utilizam terapias de GLP-1.
Uma interação direta entre as substâncias ocorre na digestão: os remédios retardam o esvaziamento gástrico, o que pode postergar o efeito dos comestíveis de cannabis. O atraso eleva o risco de o consumidor ingerir doses adicionais antes do tempo e sentir efeitos mais fortes do que o previsto.
“Com a popularização dos medicamentos de GLP-1, estamos buscando maneiras de oferecer orientações mais claras no ponto de venda”, afirma Wendy Bronfein, cofundadora e diretora de marca da produtora Curio Wellness.
O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) patrocina neste ano um estudo clínico para avaliar a tirzepatida como possível tratamento para transtorno por uso de cannabis. Segundo a diretora do NIDA, Nora Volkow, análises de prontuários eletrônicos indicaram que pacientes diabéticos que receberam semaglutida apresentaram resultados significativamente melhores em relação ao transtorno quando comparados a terapias antidiabéticas convencionais. Outro ensaio, conduzido pelo Brigham and Women’s Hospital, deve começar ainda em 2026.
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Steph Woods, vice-presidente de vendas da SōRSE Technology, observa tendências de substituição do álcool pela maconha e um uso mais direcionado da cannabis para sono e alívio de estresse. Já a organização sem fins lucrativos Realm of Caring registra aumento de consultas sobre a relação entre cannabis e metabolismo; desde 2024, dúvidas como “THC para perda de peso” e “variedades que suprimem o apetite” figuram entre as 20 mais frequentes em sua linha de atendimento.
Apesar do interesse crescente, Michael Flemmens, vice-presidente executivo de pesquisa da SōRSE Technology, recomenda cautela. Ele ressalta que as evidências ainda são majoritariamente anedóticas e que fatores como metabolismo individual, dosagem, tolerância e o tipo de medicamento para emagrecer influenciam os resultados.