O Federal Reserve (Fed) decidiu nesta quarta-feira (29) manter a taxa básica de juros dos Estados Unidos no intervalo de 3,5% a 3,75% ao ano. A deliberação, esperada pelos investidores, marca a terceira manutenção consecutiva e encerra o mandato de Jerome Powell à frente da autoridade monetária; ele deixa o cargo em 15 de maio.
A votação do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) não foi unânime. O diretor Stephen Miran defendeu um corte de 0,25 ponto percentual. Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan acompanharam a manutenção, mas discordaram do tom do comunicado, sugerindo retirar a expressão que indica possibilidade de “ajustes adicionais” na política.
No texto divulgado após a reunião, o Fed avaliou que a atividade econômica segue em ritmo sólido, mas apontou inflação ainda elevada, influenciada pela recente alta dos preços de energia. O banco central também citou maior incerteza no cenário internacional, destacando os desdobramentos no Oriente Médio.
A autoridade reiterou a postura de cautela: futuras decisões dependerão da evolução dos indicadores e da avaliação do balanço de riscos. Com isso, permanece sem data definida um eventual início de ciclo de cortes.
Para Paulo Silva, cofundador da consultoria Advisory 360, a estabilidade nos juros “mantém a atratividade da renda fixa norte-americana” e reforça a seletividade em ativos de risco, especialmente em economias emergentes, sensíveis à trajetória dos Treasuries.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, avalia que a decisão tende a acomodar o nível de risco: “Juros travados em patamar historicamente elevado em termos nominais, porém moderado em termos reais, sustentam as bolsas dos EUA, mantêm os Treasuries em movimento lateral e preservam o carry no crédito corporativo e high-yield”. Segundo ela, a atenção se volta agora ao discurso que Powell lega a seu sucessor, evitando sinalizar mudanças bruscas.
Imagem: Aaron Schwartz via valorinveste.globo.com
A saída de Powell ocorre num ambiente de cobrança crescente. Desde que assumiu a Casa Branca, em janeiro do ano passado, o presidente Donald Trump pressiona por cortes mais agressivos de juros para estimular a economia. A indicação de Kevin Warsh para chefiar o Fed enfrenta resistência de parlamentares democratas, alimentando dúvidas sobre o rumo da política monetária.
Silva avalia que Warsh pode consolidar uma postura de maior disciplina, mantendo o banco central distante de um afrouxamento precipitado. Para Zogbi, existem cenários em que o futuro presidente possa acenar com reduções de juros em 2026-2027, mas a expectativa dominante é de uma linha independente, focada no controle da inflação e no equilíbrio do balanço patrimonial.
Com o fim da reunião de hoje, o mercado passa a monitorar não apenas o nível dos juros, mas sobretudo a trajetória implícita delineada pelo Fed para os próximos meses.