Mesmo após dois cortes consecutivos da Selic, a taxa básica continua em patamar elevado e mantém a renda fixa como refúgio. A diferença, apontam gestores e analistas, está na alocação: o maior potencial hoje concentra-se na ponta longa da curva de juros, onde o prêmio reflete as dúvidas sobre as contas públicas.
Para João Arthur Almeida, diretor de investimentos da Suno Consultoria, a simetria é favorável a quem compra agora, sobretudo em juros reais: “o mercado oferece prêmio atrativo”, afirma. Caso as taxas longas recuem, o investidor pode capturar ganhos significativos, mas precisa suportar oscilações que, em determinados momentos, superam as da Bolsa.
O momento da virada, porém, é incerto. Questões eleitorais, comportamento dos títulos norte-americanos e principalmente o rumo fiscal do país complicam previsões, observa Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP Investimentos. Ela avalia que o custo atual da dívida “não cabe” no orçamento público e, portanto, não deve se perpetuar.
Ainda que o ciclo de afrouxamento monetário tenha começado, especialistas defendem manter defesa contra a alta de preços. Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, vê “as maiores assimetrias” nas NTN-Bs (Tesouro IPCA+). Para perfis conservadores, o conselho é priorizar vencimentos curtos ou intermediários, reduzindo a volatilidade de marcação a mercado.
Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB, acrescenta que, dependendo do próximo governo, gastos públicos podem pressionar a inflação; por isso prefere títulos IPCA+ a papéis atrelados ao CDI.
Títulos de taxa fixa merecem atenção redobrada. Segundo Almeida, a inflação implícita já empurrou os prefixados para cima. Caso o investidor opte por travar a taxa, Mello recomenda horizonte de médio a longo prazo e evitar acompanhamento diário.
O Tesouro Selic continua indispensável, avalia Mello. Com expectativa de estabilidade da Selic em torno de 13%, ele sugere manter parcela relevante da carteira em pós-fixados, realizando apenas ajustes marginais.
Episódios recentes envolvendo Raízen, GPA e Ambipar elevaram a aversão a risco e ampliaram spreads de debêntures, CRIs e CRAs. Rodrigues observa “efeito de contaminação”: aumentos de taxa em ativos problemáticos afetaram emissões de empresas sólidas, gerando retorno maior que o risco.
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Para Nicole Vieira, head de crédito privado da Polo Capital, o mercado dispõe de liquidez superior à de crises passadas, o que provoca vendas forçadas e exageros na precificação. A Asset1 aproveitou para trocar posições desconfortáveis por alternativas mais seguras e bem remuneradas, relata o gestor Daniel Palaia.
Os especialistas indicam concentrar recursos em companhias high grade, sobretudo bancos, empresas de energia, saneamento e concessionárias de rodovias. Mello reforça a preferência por utilities, devido à geração de caixa previsível e menor sensibilidade ao ciclo econômico. No setor de saúde, Palaia faz exceção para a Rede D’Or, considerada hoje o único ativo “totalmente seguro” do segmento.
Na lista de exclusões estão companhias altamente endividadas e dependentes do consumo das famílias. Palaia evita boa parte do setor de saúde, empresas de logística intensivas em capital e produtores de alimentos, segmentos que tendem a sofrer com juros altos por operarem com margens reduzidas.
Conservador: a XP recomenda fundos de crédito privado com gestão ativa para diluir risco de concentração.
Moderado ou arrojado: é possível comprar debêntures e certificados de recebíveis diretamente, buscando isenção fiscal e retornos superiores, sempre com análise profissional de balanços e limites de diversificação.
Para necessidades de liquidez imediata, Mello indica CDBs e Letras Financeiras, que continuam entre os instrumentos mais resilientes em períodos de prêmios voláteis.