Balanços do 1T26 mostram custo do dinheiro caro e reforçam seletividade no crédito privado

Felipe MartinsFelipe MartinsEstratégias de investimentoagora mesmo6 Visualizações

A temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026 chegou em meio a dois fatores que mexem diretamente com o bolso do investidor de crédito privado: taxa Selic estacionada em 14,5% e resgates bilionários em fundos de debêntures. Os números divulgados pelas companhias serviram de “prova de estresse” para mostrar quem consegue pagar juros tão altos usando o próprio caixa operacional.

Selic elevada corrói a cobertura de juros

Dados do Bradesco BBI revelam que, entre 200 empresas analisadas, a capacidade média de cobrir despesas financeiras utilizando o lucro operacional caiu ao menor nível em quatro trimestres. Essa métrica – chamada de cobertura de juros – indica quantas vezes o resultado antes de juros e impostos paga o custo da dívida. Quanto menor, maior o risco de a companhia depender de novas captações ou venda de ativos.

Além da Selic alta, os spreads (o “adicional” cobrado sobre a referência CDI) também subiram, elevando o custo total dos papéis emitidos nos últimos anos.

Quando o clima pesa no caixa: o caso Coruripe

  • Produção menor: queimadas e seca reduziram a moagem em quase 10%.
  • Queda no resultado operacional: recuo de 46,9% em relação à safra anterior.
  • Dívida mais cara: custo financeiro avançou 55,9%.
  • Pressão de curto prazo: R$ 1,7 bilhão a vencer até o fim do ano-safra.

Para tapar o buraco, a companhia pretende antecipar R$ 1,5 bilhão via monetização de créditos judiciais. O plano dá fôlego imediato, mas a própria empresa admite que a alavancagem – relação entre dívida líquida e Ebitda – deve crescer na próxima safra.

Varejo alimentar: Assaí mostra defesa mesmo com consumo fraco

As vendas mesmas lojas caíram 0,9%, reflexo da deflação de alimentos e da renda apertada das famílias. Ainda assim, o Assaí reduziu a alavancagem ao menor patamar desde 2021 e anunciou recompra de até R$ 200 milhões em debêntures que hoje negociam com desconto. Segundo o Itaú BBA, o movimento reforça a solidez do perfil de crédito da rede.

Receita em dólar traz respiro para exportadoras

Empresas com exposição externa ou contratos atrelados ao câmbio se destacaram:

  • Gerdau (GGBR4): Ebitda subiu quase 25% frente ao 4T25 e a alavancagem ficou em 0,74 vez – nível considerado confortável.
  • Petrobras (PETR4): Ebitda de R$ 61,7 bilhões, produção recorde de 3,23 milhões de barris/dia e spreads internacionais praticamente estáveis frente aos títulos do Tesouro Nacional.
  • PRIO, Localiza e Ultrapar: mantiveram geração de caixa sólida e dívida sob controle.

Nesse grupo, a volatilidade do dólar – hoje ao redor de R$ 5,30 – funciona mais como amortecedor do que como ameaça, já que parte relevante da receita ou dos contratos é dolarizada.

Infraestrutura regulada: fôlego, mas investimento pesa

A Sabesp ampliou o Ebitda em 26% e manteve margem próxima a 63% graças a reajustes tarifários. Por outro lado, o fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 4,6 bilhões, refletindo investimentos de R$ 5,3 bilhões no trimestre. Já a Neoenergia teve resultado operacional neutro, mas viu risco regulatório diminuir com a renovação de concessões de três distribuidoras por mais 30 anos, ampliando previsibilidade de caixa.

O que muda para quem investe em crédito privado

  • Diferenciação é palavra-chave: o segmento em que a empresa atua importa menos do que sua estrutura de capital e capacidade de gerar caixa em cenário de juros altos.
  • Resgates em fundos: só em abril, saíram R$ 18 bilhões dos veículos de crédito privado, indicando aversão ao risco por parte de cotistas.
  • Spreads elevados: embora aumentem o retorno potencial, refletem também maior percepção de risco – especialmente em emissores com cobertura de juros apertada.
  • Cuidado com o curto prazo: companhias que concentram vencimentos nos próximos 12 meses ficam mais vulneráveis a refinanciamentos caros.

Com a expectativa de juro alto por mais tempo e a cobertura de juros das empresas no menor nível recente, o mercado deve seguir premiando emissores que combinem geração de caixa estável, alavancagem moderada e acesso facilitado a fontes de liquidez. Para o investidor pessoa física, acompanhar esses indicadores nos relatórios periódicos das companhias ou nas notas dos gestores torna-se tarefa essencial antes de decidir alocar recursos em debêntures ou fundos de crédito privado.

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