O mercado brasileiro entrou em modo defesa. Depois de registrar 11 semanas de relativa calmaria, o Ibovespa fechou a semana com queda acumulada de 3,7%, aos 177 mil pontos, o pior desempenho desde o início de março. O movimento foi provocado por um choque político doméstico que se somou à escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, reforçando a aversão ao risco em todo o mundo.
Na quarta-feira, a revelação de um suposto envolvimento do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) com o banqueiro Daniel Vorcaro — preso desde 2025 pelo rombo no Banco Master — mudou o humor dos investidores. A expectativa de parte do mercado era de que a eleição de outubro trouxesse uma agenda fiscal mais dura. Com o escândalo, essa aposta perdeu força e o capital girou para ativos considerados mais seguros, dentro e fora do país.
A piora foi sentida de imediato na curva de juros. Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiram de 14,18% para 14,23% ao ano. Para vencimentos mais longos, como janeiro de 2036, a taxa passou de 14,10% para 14,26%. Quanto mais distante o vencimento, maior a percepção de risco de crédito do país.
Desde abril, a Bolsa já vinha balançando com a possibilidade de o Banco Central encerrar o ciclo de redução da Selic mais cedo que o previsto, diante de uma inflação que resiste a ceder. Ao somar risco fiscal e instabilidade política, parte do mercado passou a cogitar inclusive pausa nos cortes, o que encareceria o crédito e pode reduzir o apetite do investidor por ações de crescimento.
Para o leitor iniciante: Selic mais alta significa remuneração maior para aplicações conservadoras atreladas ao CDI ou ao Tesouro Selic, mas, ao mesmo tempo, encarece o custo de capital das empresas listadas. Em momentos de dúvida sobre a trajetória dos juros, a renda variável costuma sofrer antes que o impacto chegue à economia real.
No câmbio, o dólar à vista subiu 3,54% na semana e fechou a R$ 5,07, a maior cotação desde novembro de 2022 em termos semanais. Para o investidor, a alta da moeda norte-americana pressiona custos de importados, potencializa a inflação e reduz as margens de empresas que dependem de insumos externos.
Imagem: Christine Balderas
No topo histórico de meados de abril, o índice chegou a 198 mil pontos e alimentou projeções de 200 mil. Cinco semanas de queda depois, analistas gráficos citam 175 mil pontos como primeiro suporte relevante. Abaixo desse nível, os próximos alvos técnicos aparecem em 163.500 e 159.300 pontos, segundo relatórios de grandes bancos.
Das 79 ações do Ibovespa, 70 fecharam a semana no vermelho. Setores mais sensíveis a juros — varejo, construção e tecnologia — lideraram as baixas. Já papéis ligados a commodities e exportação seguraram parte das perdas, favorecidos pelo câmbio e pelo preço das matérias-primas.
Enquanto o noticiário político seguir dominando as manchetes, a Bolsa brasileira tende a ficar mais sensível aos títulos públicos e ao câmbio do que aos resultados corporativos. Em cenários assim, gestão de risco e diversificação ganham peso extra no dia a dia do investidor.
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