Stress no crédito privado dos EUA preocupa, mas não deve virar crise sistêmica, aponta Riza Asset

Felipe MartinsFelipe MartinsEstratégias de investimentoagora mesmo6 Visualizações

O mercado de crédito privado norte-americano atravessa um período de tensão. Após dois calotes de grandes empresas em setembro de 2025, o volume de pedidos de resgate disparou nos Business Development Companies (BDCs) — fundos listados que emprestam diretamente para companhias de médio porte. Ainda assim, o gestor Renato Jerusalmi, sócio-fundador da Riza Asset, avalia que o estresse é pontual e distante de um colapso semelhante ao subprime de 2008.

Dois defaults abriram a ferida

  • First Brands Group, fabricante de autopeças, entrou em default com passivo de US$ 11 bilhões.
  • Tricolor Auto Group, concedente de empréstimos subprime para veículos, deixou um rombo de US$ 1 bilhão.

Os episódios fizeram os resgates nos BDCs saltarem de 1,5% ao trimestre para 5% no quarto trimestre de 2025 e 8,5% no primeiro trimestre de 2026 — patamar elevado para um segmento que trabalha com ativos de baixa liquidez.

Por dentro dos BDCs e dos “gates”

BDCs são veículos regulados pela SEC que captam recursos — em grande parte de fundos de pensão, endowments e seguradoras — e os direcionam a empresas fora do radar bancário tradicional. Quando muitos cotistas pedem dinheiro de volta, o gestor pode acionar o gate, cláusula que limita os saques e evita venda forçada de ativos. Segundo Jerusalmi, a prática protege a própria carteira e reduz o risco de contaminação.

Indicadores de saúde financeira ainda controlados

  • O índice de BDCs da Bloomberg caiu de 1,0 para 0,8 vez o valor patrimonial, mínima histórica, mas voltou a 0,88 em abril.
  • Os non-accruals — créditos que deixam de pagar juros — seguem estáveis em torno de 1,3%.
  • O modelo Payment in Kind (PIK), que capitaliza juros em vez de pagá-los em dinheiro, subiu levemente de 6,5% para 7%.

A participação majoritária de investidores institucionais (85%) também ajuda a conter movimentos de pânico, segundo o gestor.

IA pressiona o setor de software e eleva risco

Parte relevante do capital concedido pelo private credit foi destinada a empresas de software compradas por fundos de private equity. A rápida adoção da inteligência artificial aumentou a incerteza sobre o modelo de negócios dessas companhias, derrubando o índice de software do S&P em cerca de 35% desde outubro de 2025. Com valuations menores, o colchão de garantias encolheu e o risco de inadimplência subiu.

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Por que não é um novo subprime

  • Tamanho: o mercado de crédito privado soma US$ 2 trilhões, bem abaixo dos US$ 25 trilhões do subprime em 2008.
  • Alavancagem: a dívida equivale a cerca de 1 vez o patrimônio, frente a múltiplos bem superiores na crise passada.
  • Perfil do investidor: predominância de institucionais, considerados menos suscetíveis à corrida por liquidez.

Mesmo num cenário de inadimplência de 10%, o impacto estimado por Jerusalmi seria de US$ 200 bilhões — cerca de 0,5% do PIB dos EUA — suficiente para gerar aperto de crédito e possível recessão leve, mas não um choque sistêmico.

O que observar do Brasil

Embora o evento seja localizado, abalos no crédito americano costumam mexer com o apetite global por risco. Para o investidor brasileiro:

  • A aversão a risco pode fortalecer o dólar, afetando empresas expostas à moeda e pressionando a inflação importada.
  • Um eventual aperto monetário nos EUA prolongaria juros altos lá fora, influenciando as curvas de NTN-B e prefixados locais.
  • Fundos de crédito privado no Brasil devem se manter atentos à demanda de cotistas e ao nível de liquidez das carteiras, embora a legislação local já imponha limites de concentração e regras de marcadação a mercado.

Por ora, o quadro descrito pela Riza Asset sugere turbulência setorial, mas sem sinal de contágio amplo. Ainda assim, vale acompanhar os indicadores de inadimplência dos BDCs e o ritmo de saques para entender se o estresse ficará realmente restrito a alguns nichos da economia americana.

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