O endividamento das famílias brasileiras nunca foi tão alto. Dados do Banco Central mostram que quase 30% da renda recebida vai para o pagamento de juros e parcelas – recorde desde 2005. Durante a Brasil Week, em Nova York, esse número chamou ainda mais atenção de gestores internacionais, que enxergam um risco subestimado pelos investidores locais.
Em 2024, a renda real das famílias subiu cerca de 4%, mas o estoque de crédito avançou entre 6,5% e 7%, segundo estimativas citadas pelo gestor Gabriel Raoni, da IP Capital Partners. Enquanto isso, o consumo cresceu apenas 1% em termos reais. O sinal é claro: boa parte do dinheiro novo não vai para comprar bens ou serviços, mas para rolar dívidas antigas.
Raoni relata que, nas reuniões em Nova York, investidores estrangeiros demonstraram preocupação maior que a vista no mercado doméstico. O motivo é o descompasso entre renda, crédito e consumo, típico de estágios finais de um ciclo de expansão.
Para o gestor, o crédito a pessoas físicas é o ponto mais sensível. Pequenas e médias empresas podem enfrentar aumento de atrasos, mas sem efeito sistêmico – ao menos por enquanto.
A projeção mais arriscada envolve uma combinação de fatores externos e internos:
Nesse cenário, o “carrinho” que sair da pista primeiro são justamente as instituições com maior exposição a crédito de consumo. Para o investidor, isso significa observar de perto indicadores de atraso nos pagamentos e provisões para perdas a partir de agora.
Se a inadimplência subir, bancos podem rever políticas de concessão, encarecendo linhas como cartão de crédito e empréstimo pessoal. Juros finais mais altos pressionam a inflação e afetam todo o mercado:
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
Para quem investe, entender a qualidade do crédito emitido pelas empresas – e dos consumidores que elas atendem – torna-se tão importante quanto olhar para lucros ou expectativas de crescimento.
O consignado privado surgiu para trocar dívidas caras por baratas. Na prática, porém, o que se vê é expansão da alavancagem: em vez de quitar débitos antigos, muitas famílias mantêm as dívidas anteriores e contraem novas. Esse comportamento pressiona o índice de serviço da dívida e prolonga o ciclo de endividamento.
A taxa Selic influencia diretamente o custo de captação dos bancos. Quando o Banco Central sinaliza cortes menos agressivos, como ocorreu após as últimas reuniões, o juro ao consumidor tende a cair mais devagar. Isso limita o alívio no orçamento das famílias endividadas.
Ao mesmo tempo, inflação resistente corrói renda real e dificulta o processo de desalavancagem. O resultado é um quadro em que o crédito continua crescendo, mas a capacidade de pagamento não acompanha na mesma velocidade.
Investidores estrangeiros, acostumados a monitorar ciclos de crédito em diversos mercados, enxergam esse descompasso como um alerta antecipado. Para o investidor brasileiro, a lição é simples: acompanhar indicadores de endividamento e inadimplência pode ser tão relevante quanto observar PIB ou balança comercial ao avaliar riscos no mercado interno.
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