
O Ibovespa registrou a 11ª queda consecutiva nesta terça-feira (18) e voltou aos patamares observados em janeiro quando analisado pelo múltiplo preço sobre lucro (P/L). O índice passou a negociar a 8,4 vezes esse múltiplo, abaixo da média histórica de dez anos, de 10,5 vezes.
O movimento ocorre após a saída de recursos estrangeiros da bolsa brasileira. No início do ano, a entrada de mais de R$ 50 bilhões ajudou a sustentar a valorização das ações locais. Desde o fim de abril, porém, os investidores estrangeiros reduziram a alocação no país e, nos últimos meses, o fluxo tornou-se negativo. Apenas entre o início de agosto e o dia 13, foram retirados R$ 15,6 bilhões.
O P/L é uma métrica que relaciona o preço de uma ação ou de um índice aos lucros das empresas. No caso do Ibovespa, um P/L de 8,4 vezes significa que, considerando os preços atuais, o investidor paga o equivalente a 8,4 anos de lucro das companhias que compõem o indicador para “recuperar” o investimento por meio desses resultados.
Quanto maior o múltiplo, mais caro tende a ser o ativo. Sob esse critério, o Ibovespa está abaixo da média histórica e também apresenta desconto em relação a outros índices da América Latina:
O desconto, no entanto, não significa necessariamente que a bolsa brasileira esteja barata em todos os sentidos. Parte da diferença é associada ao custo de capital doméstico mais alto. A Selic está em 14% ao ano, e a expectativa apresentada é que o índice acionário negocie estruturalmente com múltiplos menores em comparação com mercados que têm juros reais mais baixos.
Em 14 de abril, o Ibovespa fechou em sua máxima histórica nominal, aos 198.657 pontos, quando apresentava um P/L superior a 11 vezes. Até abril, a alta acumulada do índice chegava a 23,74%. Em agosto, esse avanço havia diminuído para 3,5%.

Com isso, o referencial devolveu quase 20 pontos percentuais nos cinco meses seguintes à máxima e passou a ficar pouco menos de 4% acima da pontuação registrada no início do ano.
A inversão do fluxo internacional é apontada como o principal fator por trás da perda de força da bolsa brasileira. As bolsas de Nova York operam próximas das máximas, sustentadas por lucros e receitas recordes das grandes empresas de tecnologia, o que voltou a atrair recursos para os mercados americanos.
A renda fixa dos Estados Unidos também passou a concorrer por esse capital. As taxas estão nos maiores níveis em vários anos, e o retorno do título público americano de 30 anos tem oscilado em torno de 5,3% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas.
No Brasil, a proximidade das eleições entre outubro e novembro aumenta a cautela dos investidores internacionais. Há indefinição sobre quem vencerá o pleito, e os investidores preferem aguardar definições sobre as políticas econômica e fiscal do futuro governo antes de assumir posições.
Esse comportamento, de acordo com o conteúdo apresentado, também foi observado nas últimas corridas presidenciais. A concorrência com a renda fixa brasileira é outro desafio: com juro real, ou seja, acima da inflação, superior a 9% ao ano, os investidores locais têm menos incentivo para assumir riscos na renda variável.
Para o momento, o conteúdo destaca uma escolha defensiva de ações, como as de companhias de utilidades públicas, conhecidas como utilities. Entre as empresas apontadas por analistas como algumas das mais resilientes neste ano estão as companhias de energia e petróleo Eneva, Prio e Petrobras. A relação também inclui empresas de saneamento e mineração.

Investidores de perfil mais arrojado, capazes de suportar oscilações mais intensas na bolsa até as eleições, podem começar a se posicionar para uma eventual retomada da renda variável em algum momento depois do pleito. Essa possibilidade é apresentada como uma expectativa, não como resultado garantido.
Entre os instrumentos citados estão os ETFs de Ibovespa, fundos que buscam seguir o principal índice da bolsa brasileira. São mencionados o BOVA11, da BlackRock, e o BOVV11, do Itaú.
Outra alternativa citada é o NBOV11, da Nu Asset. O fundo replica a carteira do Ibovespa e acrescenta uma seleção de empresas negociadas em Nova York, mas expostas à economia brasileira, como Mercado Livre, Nubank e XP.
Sérgio Tauhata é repórter de Investimentos no InvestNews, formado pela USP e com duas décadas de experiência em veículos como Valor Econômico e Folha de S.Paulo. Especialista em macroeconomia e mercado financeiro, ele possui 15 prêmios de jornalismo, incluindo reconhecimentos de B3, CVM, Abecip, Abrapp, CNseg e Sebrae.
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