O recorde recente do S&P 500 expôs uma alta concentrada em um número restrito de empresas ligadas a semicondutores e inteligência artificial, fenômeno que também se repete em outros mercados e deixa o Brasil com participação limitada.
Entre as 500 companhias do principal índice norte-americano, apenas 44 renovaram máximas históricas. Na Coreia do Sul, Samsung Electronics e SK Hynix respondem, sozinhas, por cerca de metade do indicador local. No mercado brasileiro, Petrobras (PETR4), PRIO (PRIO3) e Vale (VALE3) assumem papel semelhante.
O desequilíbrio foi tema do programa Aftermarket, apresentado por Lucas Collazo, que entrevistou Andrew Rider (WHG), Christian Keleti (Alpha Key) e Felipe Guerra (Legacy Capital) durante o encontro anual de acionistas da Berkshire Hathaway, em Omaha, Estados Unidos.
No ETF iShares de Mercados Emergentes (EEM, conhecido no Brasil como IEM), Taiwan e Coreia do Sul já somam 45% de participação. O desempenho recente do fundo tem sido impulsionado pela escalada das ações asiáticas de semicondutores, distanciando-se dos resultados do mercado acionário brasileiro.
Guerra relatou que a Legacy mantém posições em memória, semicondutores, centros de dados e energia, mas reduziu a exposição durante o choque geopolítico recente, retornando gradualmente ao mercado. Para o gestor, o setor ainda oferece potencial de ganho, embora com alta volatilidade.
Rider destacou a pressão inflacionária gerada pela corrida por inteligência artificial: “O preço da memória triplicou, cabos para centros de dados dobraram e a indústria de eletrônicos de consumo repassa custos”.
No Brasil, a preocupação recai sobre combustíveis e fertilizantes. Aproximadamente 30% do fertilizante mundial passa pelo Estreito de Ormuz, ponto sensível no Golfo Pérsico. Embora as safras atuais estejam garantidas, um impasse prolongado pode elevar o preço dos alimentos em ano pré-eleitoral.
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A pesquisa Focus já captou alta nas projeções do IPCA para o próximo ano, movimento não observado em outras economias. Guerra atribui esse cenário a questões de credibilidade e logística de transporte de combustível no país.
Mesmo com o avanço das expectativas de inflação, os gestores avaliam que o Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, deve manter cortes de 0,25 ponto percentual na Selic. Para Guerra, aumentar juros ou mantê-los em 14,75% não resolveria gargalos de oferta.
Ele observa ainda que as taxas longas brasileiras, a partir de 2030, permanecem em níveis iguais ou inferiores aos verificados antes do conflito, e o câmbio segue valorizado, sinalizando desorganização, mas não perda de âncora fiscal.
Na avaliação de Guerra, a autoridade monetária opera “em modo automático” e deve continuar cautelosa até que a magnitude dos choques seja mais clara.