
O mercado de aviação executiva no Brasil movimenta receitas que vão muito além da compra e venda de aeronaves. Aeroportos, bancos, empresas de fretamento, oficinas, seguradoras e administradoras disputam negócios relacionados a hangares, abastecimento, manutenção, terminais exclusivos e propriedade compartilhada.
Um dos exemplos é o São Paulo Catarina, aeroporto do grupo JHSF localizado em São Roque, a cerca de 60 quilômetros da capital paulista. O empreendimento, que já recebeu Elon Musk, Neymar e o cineasta Francis Ford Coppola, concluiu sua sexta expansão em sete anos e registrou lucro de R$ 143 milhões em 2025.
O crescimento do aeroporto acompanha um mercado restrito, mas relevante em escala global. O Brasil tem a segunda maior frota de jatos executivos do mundo, com 1.140 aeronaves. Os Estados Unidos lideram com 15.900.
No São Paulo Catarina, pousos e decolagens representam apenas uma parte da operação. O aeroporto também cobra pela guarda, pelo abastecimento e pela manutenção das aeronaves. Além disso, oferece salas privativas, catering do Fasano e conexão de helicóptero com a capital paulista, em um trajeto de aproximadamente 14 minutos.
A falta de espaço nos principais aeroportos ajuda a valorizar essa infraestrutura. Paul Malicki, CEO da plataforma Flapper, afirma que guardar um jato em Congonhas ou no Galeão pode custar cerca de R$ 90 mil por mês. Em aeroportos como Pampulha e Campo de Marte, o valor estaria próximo de R$ 30 mil.
Malicki também afirma que os aeroportos de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba já enfrentam escassez de espaço para novos hangares.
O BTG Pactual entrou nesse mercado por meio de um terminal para passageiros de alta renda inaugurado no fim de 2024 dentro do Aeroporto Internacional de Guarulhos. O espaço permite fazer check-in, despacho de bagagens, inspeção de segurança, imigração e alfândega sem passar pelos terminais convencionais.
Parte dos clientes chega a Guarulhos em aeronaves privadas e segue viagem em voos internacionais de primeira classe ou classe executiva. O banco obtém receitas com taxas de acesso e também utiliza o terminal como instrumento de relacionamento com clientes que podem consumir outros produtos financeiros.
Enquanto grupos maiores investem em infraestrutura, outras empresas buscam ampliar o acesso à contratação de voos e reduzir os custos de manter uma aeronave.
A Flapper foi criada em 2016 como uma plataforma de fretamento, em uma proposta frequentemente comparada à de um “Uber dos jatos e helicópteros”. Nos últimos anos, a empresa adquiriu uma frota própria de jatinhos e passou a oferecer também propriedade compartilhada de aeronaves.
O voo compartilhado mais barato oferecido pela plataforma custa aproximadamente R$ 3 mil por passageiro. Já o ticket médio de um fretamento completo chega a R$ 82 mil. Apesar dos valores elevados, o fretamento pode custar menos do que manter uma aeronave própria.

Segundo estimativas apresentadas por Malicki, o proprietário de um jatinho pode gastar de R$ 150 mil a R$ 400 mil por mês com hangar, tripulação, manutenção, seguros e documentação. Essas despesas continuam existindo mesmo quando o avião permanece parado.
Por isso, empresas como Líder Aviação e Voar Aviation oferecem vários serviços ao mesmo cliente. Entre as atividades estão a contratação de tripulações, a coordenação da manutenção, o cuidado com a documentação, os serviços de hangar e a intermediação da compra e venda de aeronaves.
Entre fretar um voo e comprar um avião inteiro, existe ainda a propriedade compartilhada. Empresas como Avantto, Prime You, Amaro Aviation e Flapper dividem as aeronaves em cotas. O cliente compra uma fração, paga uma taxa mensal e passa a ter direito a uma quantidade determinada de horas de voo.
Em uma das opções apresentadas pela Flapper, uma cota de avião pode superar R$ 2,8 milhões. Como comparação, modelos novos importados custam não raramente mais de R$ 10 milhões, sem contar o tempo de espera para entrega. O cliente ainda paga cerca de R$ 11 mil por mês e mais R$ 3 mil por hora voada, segundo a companhia.
Para o cliente, o modelo reduz o capital necessário para entrar na aviação executiva e divide os custos fixos entre diferentes proprietários. Para as empresas, a propriedade compartilhada gera contratos mais longos e receitas mais previsíveis.
O tamanho da frota brasileira é associado a uma combinação de geografia e economia. O país tem dimensões continentais, enquanto a malha aérea comercial está concentrada nas capitais e nos maiores centros urbanos. Ao mesmo tempo, fazendas, minas, fábricas e obras de infraestrutura estão espalhadas pelo interior.
Para parte dos empresários, o avião não funciona apenas como símbolo de luxo. Ele também é utilizado para visitar diferentes operações e reduzir o tempo gasto em deslocamentos.
“O Brasil é um ponto fora da curva”, afirma Maeen Shaban, diretor de pesquisa e análise de dados da Altrata, consultoria especializada no mercado de grandes fortunas.
De acordo com Shaban, países com população de alta renda maior, como China, Alemanha e Reino Unido, ficam atrás do Brasil em propriedade de jatos. A dimensão territorial e a presença de operações econômicas em áreas pouco atendidas pela aviação comercial ajudam a explicar essa diferença.
A Altrata afirma que a maior parte dos proprietários utiliza as aeronaves principalmente em viagens de trabalho. O perfil também está distante da imagem mais frequente nas redes sociais: apesar da exposição de artistas e influenciadores, a propriedade continua concentrada em empresários mais velhos, famílias controladoras de grandes grupos e pessoas com patrimônio muito elevado.
Levantamento da consultoria indica que quase 99% dos proprietários brasileiros são homens e que a idade média está próxima dos 70 anos.

A Altrata projeta ainda crescimento de cerca de 40% na quantidade de brasileiros com patrimônio superior a US$ 100 milhões nos próximos anos. Como esse é o principal público comprador de jatos, a aposta da consultoria é que a frota brasileira terá um crescimento promissor.
Nos Estados Unidos, a aviação executiva deixou de depender exclusivamente da compra individual de aeronaves. Embora o país tenha mais de mil empresas de fretamento e propriedade compartilhada, duas se destacam pela escala: NetJets e Flexjet.
A NetJets pertence à Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, desde 1998 e é a maior empresa de propriedade compartilhada do mundo. Sua escala permite distribuir aeronaves e tripulações por diferentes regiões e reduzir os voos de reposicionamento sem passageiros, conhecidos como empty legs.
A Flexjet, segunda maior companhia do segmento, investe na associação com o mercado de luxo. Em 2025, a L Catterton, gestora ligada à LVMH, maior grupo de luxo do mundo, investiu US$ 800 milhões na empresa, avaliando-a em aproximadamente US$ 4 bilhões.
No mesmo ano, a Flexjet anunciou um acordo para comprar até 212 jatos da Embraer. O pedido pode chegar a US$ 7 bilhões e é o maior já recebido pela divisão de aviação executiva da fabricante brasileira.
Mesmo com a escala americana, a operação enfrenta dificuldades. Diferentemente de uma companhia aérea, que escolhe suas rotas e vende centenas de assentos em um único voo, uma operadora de jatos precisa se adaptar à agenda de cada cliente.
Depois de deixar um passageiro, o avião pode precisar voar vazio até o próximo embarque. Nesse intervalo, permanecem despesas com pilotos, combustível, manutenção, seguro, financiamento e hangaragem.
No Brasil, essa conta é ainda mais difícil, porque o país tem menos clientes, menor escala operacional e uma rede mais limitada de aeroportos, hangares e oficinas especializadas. Peças importadas, combustível e custos de financiamento também encarecem a operação.
O crescimento do São Paulo Catarina, a entrada do BTG Pactual e o avanço da propriedade compartilhada mostram a existência de negócios ao redor dos jatos brasileiros. Para o setor, porém, o desafio está menos em vender aviões e mais em fazê-los voar por mais tempo, com menos trechos vazios e maior geração de receita.
Use as ferramentas gratuitas do Trader Iniciante para simular investimentos, acompanhar o Tesouro Direto e consultar resultados atualizados.






