O aumento persistente do custo de vida no Reino Unido transferiu parte da pressão financeira para quem já deveria estar colhendo os frutos da aposentadoria: os avós. Estudos recentes indicam que essa geração gasta, em média, 14,6 bilhões de libras por ano — mais de R$ 98 bilhões — para ajudar filhos e netos a fechar as contas.
Quanto custa ser avô em 2026
- Uma pesquisa da fintech Creditspring com mais de mil avós mostrou que 70% consideram o cuidado dos netos mais caro que há um ano.
- Levantamento da Moneysupermarket estimou um apoio total superior a £37 mil (cerca de R$ 249 mil) do nascimento até os 18 anos.
- Entre famílias de alta renda, o gasto anual com netos adultos fica em torno de £1.591 (R$ 10,7 mil), segundo a Saltus.
Os recursos cobrem desde fraldas até mensalidades de creches, aluguel de imóveis maiores e, em alguns casos, a compra de carros indispensáveis para o trabalho dos pais.
Por que a conta aumentou
Três fatores concentram boa parte da pressão:
- Inflação persistente: alimentos, energia e combustíveis continuam caros, corroendo o poder de compra das famílias.
- Imóveis valorizados: o preço das casas subiu acima da renda média, dificultando a entrada dos jovens no mercado imobiliário.
- Mercado de trabalho competitivo: recém-formados enfrentam salários iniciais enxutos e contratos temporários, o que amplia a dependência do “banco dos avós”.
Implicações tributárias
Mudanças recentes no sistema fiscal britânico adicionaram camadas de complexidade:
- IVA em escolas particulares elevou as mensalidades.
- Limites menores para capital gains (ganho de capital) e a inclusão completa das poupanças de aposentadoria no imposto sobre herança a partir de 2027 mudaram as regras do jogo.
Essas alterações colocam pressão adicional sobre quem planeja doar parte do patrimônio ainda em vida. Estratégias como sacar 25% da aposentadoria sem imposto e usar veículos como Junior ISAs (equivalentes britânicos de contas de investimento isentas) ou trusts simples ganharam popularidade.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
O que dizem os planejadores financeiros
Consultores alertam que a expectativa de vida maior — muitos britânicos passam até três décadas aposentados — exige cautela. Antes de doar, é preciso simular cenários de gastos com saúde e manutenção do padrão de vida. Entre as recomendações corriqueiras estão:
- Priorizar doações de valor menor e recorrentes, que podem ficar isentas de imposto se saírem da renda excedente.
- Aproveitar a regra dos sete anos: doações diretas escapam do imposto sobre herança se o doador viver mais que esse período.
- Equilibrar presentes em vida (por exemplo, mensalidades escolares) com aportes direcionados à formação de capital de longo prazo dos netos.
Lições para investidores iniciantes
Embora o cenário descrito seja específico do Reino Unido, ele traz reflexões úteis para qualquer investidor:
- Planejamento multigeracional: quem acumula patrimônio precisa considerar a transferência de riqueza já na fase de acumulação, não apenas na sucessão.
- Fundo de emergência robusto: aposentados que ajudam a família devem reforçar reservas líquidas para evitar saques emergenciais de aplicações de longo prazo.
- Impacto de mudanças tributárias: leis fiscais podem alterar o retorno real dos investimentos e a estratégia de doação; acompanhar o tema é parte da gestão de riscos.
No fim das contas, o “exército de reserva” formado pelos avós continua fundamental para sustentar o consumo e, por extensão, a própria economia. Mas a conta só fecha com planejamento e consciência de que o apoio às novas gerações não pode comprometer a segurança financeira de quem já atravessou décadas construindo seu patrimônio.