São Paulo – O avanço de conflitos na Europa e o risco de uma escalada militar no Oriente Médio reforçam a necessidade de repensar estratégias globais, avaliou Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria Eurasia Group, em participação no podcast Outliers InfoMoney.
Segundo Garman, a guerra na Ucrânia serviu de “alerta” para o continente. A percepção de que os Estados Unidos já não garantem sozinhos a segurança europeia, somada ao distanciamento de Donald Trump da OTAN, levou governos a discutirem grandes aportes na indústria bélica, a fim de reduzir a dependência do aparato militar americano.
Ao mesmo tempo, a região encara obstáculos econômicos. Nos três principais países europeus — Reino Unido, França e Alemanha —, a aprovação média de governos chega a 21%. O apoio a partidos populistas saltou de cerca de 10% para até 50% em vinte anos, o que, na visão do analista, pode travar reformas estruturais e comprometer os planos de rearmamento.
Garman descreve a economia russa como “voltada para a guerra”. As sanções internacionais não geraram colapso, mas limitaram recursos. Mesmo assim, o apoio interno a Vladimir Putin permanece elevado, e a consultoria não vê sinais de desistência do conflito na Ucrânia a curto prazo.
Para o próximo mês ou dois, o principal “risco de cauda” apontado pela Eurasia Group é uma ofensiva maior de Estados Unidos e Israel contra o Irã. A Casa Branca, afirma o executivo, estaria inclinada a operações que visem fragilizar o regime iraniano, considerado vulnerável após enfrentamentos recentes.
Uma reação de Teerã incluiria, possivelmente, tentativas de bloquear o Estreito de Hormuz ou atacar instalações na Arábia Saudita, o que pressionaria o preço do petróleo. Garman ressalta, porém, que a capacidade iraniana de manter um bloqueio prolongado é limitada. No longo prazo, o risco estrutural da região diminuiu com a menor capacidade do Irã de financiar grupos como Hezbollah e Hamas.
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No ambiente global fragmentado, o especialista considera o Brasil “bem posicionado” entre as potências médias. O país combina liderança no agronegócio, crescimento da produção de petróleo e a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Essa combinação, aliada à busca internacional por diversificação de parceiros, tem estimulado fluxo de capital: mais de R$ 26 bilhões ingressaram na B3 em janeiro, observa Garman.
O ponto frágil, segundo ele, é o quadro fiscal. Uma expansão descontrolada de gastos limitaria cortes na taxa Selic e tornaria a dívida pública insustentável. Se o atual presidente mantiver o cargo nas próximas eleições, o analista prevê um ajuste “xoxo”; um eventual governo de oposição tenderia a um aperto mais robusto.
Há ainda o risco de “equilíbrio de complacência”: um ajuste mínimo, somado a condições externas favoráveis, poderia fortalecer o câmbio e conter expectativas sem atacar problemas estruturais. Instabilidade institucional, exemplificada pela crise do Banco Master, e o elevado custo de capital — com Selic a 15% — completam a lista de preocupações dos investidores.