Analistas do BTG Pactual avaliaram que o Novo Desenrola, anunciado pelo governo federal nesta segunda-feira, 4 de maio de 2026, adota um formato significativamente mais intervencionista do que a versão anterior, ao impor obrigações diretas às instituições financeiras participantes.
No relatório assinado por Luiz Guanais e equipe, o banco destaca três frentes obrigatórias: 1) remoção automática de registros negativos para dívidas de até R$ 100; 2) oferta ampliada de renegociação nas principais linhas de crédito — cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal e Fies; e 3) cumprimento de condicionantes comportamentais e sociais.
Segundo o BTG, enquanto a primeira edição valorizava o volume renegociado, a nova fase prioriza a reabilitação de consumidores ao sistema de crédito em larga escala. A limpeza automática de pequenas dívidas deve acelerar a recuperação de scores, fator considerado vital em um mercado onde inadimplências modestas já restringem o acesso ao financiamento formal.
O estudo ressalta que a medida chega em um momento de endividamento doméstico em patamar histórico, com inadimplência ainda elevada em cartões e empréstimos pessoais e milhões de nomes negativados.
O programa prevê descontos de até 90% sobre o valor devido e limite de juros de 1,99% ao mês, visando a base da pirâmide de crédito. Também autoriza o uso de até 20% do saldo do FGTS, limitado a R$ 1.000, para quitar dívidas em aberto, com repasse direto aos bancos — mecanismo que, na visão do BTG, reduz o risco de uso indevido do fundo.
Quem aderir ao Desenrola 2.0 ficará proibido de realizar apostas online por 12 meses. Para os analistas, a medida busca redirecionar renda para consumo essencial e pagamento de débitos, diante da expansão superior a 200% ao ano prevista para o setor de apostas em 2025.
Imagem: Reuters via moneytimes.com.br
O programa pode utilizar até R$ 15 bilhões em garantias da União para viabilizar taxas menores, com impacto fiscal estimado em R$ 5 bilhões.
O BTG vê o principal canal de transmissão na reabilitação do acesso ao crédito formal. Contudo, projeta que a originação de novos empréstimos continuará moderada, barrada por juros altos e maior aversão ao risco dos bancos.
A equipe calcula estabilização nos volumes, sem aceleração expressiva, com efeitos mais perceptíveis em setores dependentes de financiamento — como eletrônicos, vestuário e comércio eletrônico, onde o crédito responde por 50% a 70% das transações. O varejo alimentar, responsável por 35% a 40% do consumo das famílias, também pode ser beneficiado, embora o banco mantenha cautela quanto à intensidade e à duração do impacto.
Para os analistas, o Desenrola 2.0 tende a sustentar o consumo no curto prazo; porém, uma recuperação mais duradoura exigirá ambiente macroeconômico favorável, especialmente redução das taxas de juros e do comprometimento financeiro das famílias.