A chinesa BYD conquistou mais seis meses de isenção do Imposto de Importação para trazer ao Brasil kits de veículos elétricos parcialmente montados. A decisão contraria a posição da Anfavea, associação que representa as montadoras instaladas no país, e reforça o peso da articulação política da empresa junto ao governo federal.
O que está em jogo
- Regimes CKD e SKD: siglas em inglês para veículos que chegam totalmente (CKD) ou parcialmente (SKD) desmontados. A montagem final ocorre aqui, reduzindo a alíquota do imposto.
- Prazo estendido: a prorrogação vale até o fim de 2026 e mantém a BYD competitiva no curto prazo, enquanto a empresa ergue suas fábricas em Camaçari (BA).
- Indústria nacional em alerta: rivais temem que a prática adie a criação de cadeia de autopeças local, pressionando empregos e investimentos.
Por que o governo cedeu
A Bahia foi decisiva nas eleições de 2022, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, ex-governador do estado, tornou-se principal interlocutor da BYD em Brasília. Manter a operação ativa na antiga planta da Ford ajuda a sustentar empregos regionais — argumento sensível em ano eleitoral.
Impacto para o investidor
- Ações ligadas ao setor: BYD, GM e Stellantis são acessíveis via BDRs na B3. A manutenção de incentivos pode sustentar receitas no curto prazo, mas pressões regulatórias seguem no radar.
- Valorização do Real e taxa Selic: quando o real está mais forte e a Selic em queda, importar peças fica relativamente mais barato. A prorrogação da isenção diminui ainda mais o custo, favorecendo estratégias de preço agressivo.
- Mercado de elétricos: a isenção apoia a expansão desse nicho, que já cresce acima da média do setor automotivo. Montadoras locais tendem a acelerar lançamentos híbridos para não perder participação.
Concorrentes também se beneficiam
Apesar da resistência pública, General Motors e Stellantis utilizam o mesmo regime para montar modelos elétricos importados da China em Horizonte (CE) e Goiana (PE). O ganho de fôlego pode se refletir em mais ofertas de veículos eletrificados no país.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
Riscos apontados pela Anfavea
- Dependência externa: quanto mais peças chegam de fora, menor o incentivo para desenvolver fornecedores locais.
- Concorrência de preço: carros importados com vantagem tributária competem diretamente com modelos nacionais, pressionando margens de quem produz integralmente no Brasil.
- Incerteza regulatória: prolongar benefícios por tempo indefinido dificulta o planejamento de investimentos de longo prazo, ponto sensível para empresas listadas.
Próximos passos
A BYD promete nacionalizar boa parte de seus componentes até 2027. Caso não avance conforme o cronograma, o debate sobre novas prorrogações deve ganhar força. Para o investidor, o tema merecerá atenção porque mistura política industrial, eleições e a transição global para veículos de baixa emissão — fatores que costumam trazer volatilidade para ações do setor.