Grandes investidores internacionais voltaram a colocar o Brasil no radar, mas agora por estradas menos óbvias do que o pregão da B3. Gestores como Bruno Serra, da Itaú Asset, relataram um “volume incomum” de reuniões recentes com estrangeiros interessados em diferentes frentes: fundos macro, startups e até o mercado de seguros e resseguros.
De onde vem essa movimentação?
- Fundos multiestratégia – Casas globais que atuam em várias classes de ativos, como Balyasny, Schonfeld e Millennium, buscam abrir ou reforçar mesas dedicadas à América Latina. Segundo Andrew Reider, da WHG, esses grupos “captaram muito dinheiro e estão no limite da capacidade”, precisando de mercados com retorno pouco correlacionado ao portfólio atual.
- Modelo seguradora + investimento – Grupos internacionais inspirados na lógica da Apollo Global Management e da Berkshire Hathaway sondam o mercado brasileiro de seguros. A ideia é usar o prêmio recebido na venda de apólices como fonte de capital de longo prazo para investimentos, estratégia conhecida por unir fluxo constante de caixa ao retorno potencial de ativos de risco.
- Venture capital – Há interesse em fundos que investem em startups locais. Para Bruno Serra, parte do capital estrangeiro que antes limitava-se à Bolsa agora estuda colocar recursos em fases iniciais de empresas de tecnologia.
Por que agora?
O Brasil oferece uma combinação de fatores que chama atenção de quem procura diversificação:
- Juros elevados – A taxa Selic em patamar de dois dígitos (o debate no mercado gira em torno de algo próximo a 14% ao ano, segundo os gestores) cria um cenário de retorno nominal alto na renda fixa e aumenta o “custo de oportunidade” de investir em ações. Para estrangeiros, porém, o juro também significa renda em moeda forte quando há cobertura cambial.
- Valuação relativa – Depois de anos de volatilidade, diversos ativos brasileiros ficaram mais baratos frente a pares globais, o que atrai quem busca assimetria de risco: perda potencial limitada e espaço maior para ganho em caso de melhora do ambiente econômico.
- Câmbio historicamente depreciado – O real barato para padrões históricos reduz o preço de entrada em dólares e funciona como colchão contra eventuais oscilações no curto prazo.
Impacto para o investidor iniciante
- Bolsa ainda é o “mapa” mais comum – O principal caminho do capital estrangeiro continuava sendo o ETF iShares MSCI Brazil (EWZ), listado em Nova York. O novo fluxo, porém, mostra que o interesse pode se espalhar por outros cantos do mercado, reduzindo a dependência desse único veículo.
- Mercado de seguros pode crescer – Caso seguradoras globais efetivamente entrem no país, a competição tende a aumentar, com potencial melhora de produtos e precificação para o consumidor.
- Startups ganham fôlego – Mais recursos em venture capital significam oportunidades de emprego, inovação e, no futuro, novas ofertas públicas de ações (IPOs) ou fusões que podem chegar ao radar da Bolsa.
- Diversificação de carteiras – O investidor local, acostumado a concentrar a poupança em renda fixa indexada ao CDI, pode observar maior variedade de produtos estruturados e fundos globais operando por aqui.
Risco político volta ao centro do debate
Embora o apetite estrangeiro tenha aumentado, a pauta política não saiu do foco. Áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e especulações eleitorais já afetam projeções de segundo turno citadas por gestores. Para Christian Keleti, da Alpha Key, essa incerteza cria um cenário de assimetria interessante para a Bolsa: algo entre 30% e 50% de potencial de alta, contra queda estimada em torno de 10% em um desfecho desfavorável.
Mesmo assim, Keleti pondera que o juro elevado e a possibilidade de novo mandato presidencial mantêm parte do capital de grande porte longe de posições expressivas em ações brasileiras por enquanto.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
Classes de ativos no radar
- Ações – Podem se beneficiar de fluxos adicionais, mas seguem sensíveis à política e aos juros.
- Renda fixa – O nível alto da Selic continua a atrair investidores, inclusive estrangeiros, pelo prêmio de risco.
- Dólar – Movimentos de entrada de capital tendem a aliviar pressões de alta, mas incertezas fiscais e eleitorais podem gerar volatilidade.
- Criptomoedas – Não foram citadas diretamente, mas podem competir por parte do mesmo capital que busca diversificação e retorno descorrelacionado.
O resultado prático, segundo os gestores ouvidos, é um Brasil novamente no roteiro global de investimento, porém por vias mais variadas. Para o investidor doméstico, compreender essa nova rota de capitais ajuda a contextualizar movimentos de preço e a calibrar expectativas em meio ao mix de juros altos, câmbio volátil e agenda política carregada.