Clima pressiona commodities: cacau renova máxima de 7 meses e açúcar encosta em topo de 2 meses

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaAções28 minutos atrás25 Visualizações

Os contratos futuros de cacau negociados em Londres encerraram a quarta-feira (8) em alta de 5,3%, a 4.493 libras por tonelada, depois de tocarem 4.613 libras – o pico em sete meses. O movimento reflete o receio de um El Niño classificado pela ONU como “forte”, com possibilidade de ser elevado a “muito forte”, o que tende a reduzir chuvas em partes da África Ocidental, região responsável por cerca de 60% da produção mundial do grão.

Por que o clima pesa tanto sobre o cacau

O mercado lembra de 2024, quando o fenômeno, então de intensidade moderada, provocou quebra de safra e fez as cotações praticamente triplicarem. Agora, corretores apontam que a Costa do Marfim – maior produtor global – já vendeu antecipadamente boa parte da colheita, reduzindo a oferta disponível para o restante do ano-safra. Com menos lotes aparecendo na ponta vendedora, qualquer notícia climática é suficiente para acelerar compras especulativas.

Açúcar acompanha petróleo e mira biocombustíveis

O açúcar bruto em Nova York chegou a 15,39 ¢/lb, o maior valor em quase dois meses, antes de fechar praticamente estável em 15,11 ¢/lb. A correlação veio da alta do petróleo: preços de energia mais altos elevam a atratividade do etanol, fabricado a partir da cana-de-açúcar, e podem levar usinas a direcionar maior parte da matéria-prima para combustíveis, limitando a produção de açúcar.

No Brasil, essa dinâmica foi reforçada pela expectativa – ainda sem data para decisão – de que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aumente a mistura obrigatória de etanol na gasolina. Segundo a consultoria Czarnikow, o ciclo 2026/27 deve registrar um pequeno déficit global de 600 mil toneladas, o que adiciona sustentação aos preços.

Café devolve ganhos após forte volatilidade

No mesmo pregão, o arábica caiu 2,5%, a 3,098 ¢/lb, acumulando recuo de quase 12% em dois dias e anulando parte da disparada de 16% vista na segunda-feira. Corretores atribuem o ajuste à entrada de produtores brasileiros, que aproveitam a colheita volumosa para travar preços. O robusta também cedeu 3,4%, para 3.741 US$/t.

O que isso significa para o investidor

  • Inflação de alimentos: altas persistentes em cacau e açúcar podem pressionar índices de preços globais, tema monitorado por bancos centrais e, indiretamente, pelos mercados de juros.
  • Commodities na carteira: quem aplica via fundos multimercado ou ETFs expostos a soft commodities deve ficar atento à elevada volatilidade típica desses mercados, potencializada por clima e energia.
  • Dólar e Selic: oscilações internacionais podem influenciar o câmbio. Para o poupador brasileiro, valorização do dólar encarece importações e pesa na inflação local, fator observado pelo Banco Central na condução da Selic.
  • Diversificação: movimentos distintos entre cacau (alta) e café (queda) mostram a importância de não concentrar posições em um único produto agrícola.

Com a temporada de definição de safras no hemisfério Norte e a possibilidade de um El Niño ainda mais severo, a atenção permanece voltada para mapas de clima, reuniões de política energética e a reação dos produtores. Enquanto isso, o investidor que acompanha o agronegócio encontra um mercado de commodities em pleno teste de resistência, marcado por rápidas mudanças de direção – e impactos que vão além das cotações das bolsas internacionais.

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