A pouco mais de sete meses da entrada em vigor dos novos tributos sobre o consumo, a reforma tributária virou campo de batalha no Congresso. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que deputados e senadores protocolaram 50 projetos para alterar ou adiar pontos centrais do novo sistema. A movimentação reforça a incerteza em torno das regras que substituirão PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS.
A maior parte das propostas (70%) tenta mexer no Imposto Seletivo, tributo que incidirá sobre produtos considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente, como bebidas alcoólicas, fumo e veículos altamente poluentes. Os demais textos pedem novas exceções ou alíquotas especiais na CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e no IBS (Imposto sobre Bens e Serviços).
O estopim foi a fala do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que defendeu suspender a reforma por um ano. O gesto animou setores insatisfeitos e deu fôlego a emendas que buscam reduzir ou zerar tributos para segmentos específicos, de aplicativos de mototáxi a fabricantes de motocicletas.
A lógica do desenho original é simplificar a cobrança, reduzir litígios e dar transparência ao peso dos impostos na nota fiscal.
Especialistas apontam que cada benefício concedido a um grupo específico pressiona a alíquota geral para cima, já que a arrecadação total precisa ser mantida. A equipe econômica calcula que flexibilizações adicionais podem levar o IVA brasileiro a algo próximo de 30%, patamar considerado alto internacionalmente.
Para o ex-secretário Bernard Appy, recuar agora significaria desperdiçar ganhos de produtividade estimados entre 8% e 15% do PIB em 15 anos. Já entidades como a indústria do fumo alertam que um Imposto Seletivo muito elevado pode empurrar consumidores para o mercado ilegal.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
Em ano de campanha, qualquer discussão sobre aumento de tributos costuma ganhar força nas redes sociais e pode influenciar expectativa de inflação e, indiretamente, a trajetória dos juros básicos (Selic). Mudanças de última hora também afetam a precificação de ações de setores sensíveis — como bebidas, varejo e transporte — e elevam o custo de adaptação de empresas que já investem em sistemas para o novo modelo.
Para o investidor pessoa física, a principal consequência é a maior volatilidade em ativos expostos a consumo interno e a dúvida sobre o repasse de custos aos preços finais. Renda fixa atrelada à inflação e títulos do Tesouro podem refletir, ainda que de forma moderada, a percepção de risco fiscal caso a alíquota padrão suba sem corte de gastos.
Até que o texto final seja conhecido, analistas recomendam cautela na interpretação de preços e resultados das empresas, pois o desenho da reforma continua em disputa no Congresso.
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