Crédito das famílias volta a disparar e acende alerta de “boom-bust” no consumo brasileiro

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro1 hora atrás7 Visualizações

O crédito é peça importante para o funcionamento da economia, mas o avanço acelerado do endividamento das famílias brasileiras volta a preocupar. Análise da economista Cecilia Machado, chefe do Banco BoCom BBM e professora da PUC-Rio, mostra que a dívida dos lares já equivale a 35% do Produto Interno Bruto (PIB) – o maior nível da série histórica.

Por que o crédito às famílias pode virar problema

Quando empresas tomam empréstimos, há chance de que o recurso se transforme em investimento produtivo. No caso das famílias, o crédito costuma apenas antecipar consumo. Se a renda não cresce no mesmo ritmo, a conta chega e o orçamento doméstico fica apertado.

A literatura econômica chama esse ciclo de boom-bust: primeiro, a oferta farta de financiamento impulsiona compras e o PIB; depois, o serviço da dívida reduz o consumo e desencadeia desaceleração – ou até recessão.

O que aconteceu no último ciclo (2003-2014)

  • A relação dívida/PIB saiu de 10% para 25%.
  • O estoque de crédito às pessoas físicas cresceu quase cinco vezes.
  • Modalidades como consignado, financiamento de veículos e crédito imobiliário lideraram a expansão.
  • O resultado foi a recessão de 2015-2016, com oito trimestres seguidos de queda do PIB e forte recuo no consumo.

Estudo do Banco Central citado por Machado indica que cada ponto percentual extra na razão dívida-renda reduziu o consumo em 1,24 ponto percentual durante a crise – impacto sentido sobretudo nas linhas de juros mais altos.

Os sinais do ciclo atual

  • Desde 2019, o crédito livre avançou 75% em termos reais.
  • A dívida das famílias passou de 25% para 35% do PIB.
  • A relação dívida-renda subiu de 40% para 50% – novo recorde.
  • Modalidades mais caras crescem acima da média.

Programas recentes reforçam a tendência. O Crédito do Trabalhador (consignado para o setor privado), linhas específicas para motoristas de aplicativo, microempreendedores e novos incentivos ao financiamento habitacional ampliam o alcance do endividamento.

Relação com juros, inflação e mercado

Mesmo com a trajetória de queda da Selic em 2024, as taxas finais ao consumidor permanecem elevadas, sobretudo nas modalidades rotativas. Juros altos aumentam o custo do serviço da dívida e podem pressionar a inadimplência.

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Investidores devem acompanhar:

  • Bancos e varejistas listados na Bolsa, que podem enfrentar maior índice de atraso nos pagamentos.
  • Inflação de serviços, sensível à renda disponível das famílias.
  • Renda fixa atrelada ao CDI, beneficiada se o Banco Central precisar manter juros altos por mais tempo para conter pressões de demanda.

Implicações para o crescimento

A história recente sugere que, sem avanço equivalente na produtividade ou na poupança doméstica, o país corre o risco de repetir o roteiro visto há uma década. A expansão do crédito impulsiona o consumo no curto prazo, mas pode custar crescimento nos próximos anos se a alavancagem permanecer elevada.

Para Machado, insistir nessa estratégia significa adiar investimentos estruturais que realmente elevem a capacidade produtiva do Brasil. O ajuste, alerta a economista, tende a aparecer mais cedo do que se imagina.

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