O mundo pode atravessar um dos piores períodos recentes de insegurança alimentar, de acordo com análise do jornalista Mauro Zafalon, publicada na coluna Vaivém das Commodities. O colunista atribui o novo risco a um conflito geopolítico que envolve o ex-presidente norte-americano Donald Trump e o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, situação que impulsiona os preços de petróleo, gás natural e fertilizantes.
Zafalon lembra que, após uma breve trégua na inflação dos alimentos provocada pela pandemia de Covid-19 e pela invasão da Ucrânia pela Rússia, os custos voltaram a subir. Metade da produção agrícola mundial depende de fertilizantes, e um terço desse insumo passa pelo Estreito de Hormuz, atualmente fechado, segundo ele. Esse gargalo logístico, aliado à alta de frete e seguros, tende a pressionar ainda mais os preços ao consumidor.
Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que o índice global de alimentos aumentou 3% em março, na comparação com fevereiro. O relatório de 2025 da agência já mostrava 673 milhões de pessoas em situação de fome, número que pode crescer se a tendência de alta se mantiver.
Nos Estados Unidos, a inflação em 12 meses subiu para 3,3% em março, 0,9 ponto percentual acima do mesmo período de 2025 e o maior avanço desde junho de 2022. Só em março, a gasolina ficou 21% mais cara e o óleo combustível, 31%.
A Europa registra movimento semelhante: gasolina 15% mais cara e diesel 30%, elevando a inflação média da zona do euro para 2,5%, também o maior patamar desde junho de 2022. Na China, os preços da gasolina avançaram 33% e os do diesel, até 20%. A Índia, grande consumidora de óleos vegetais que substituem parte do petróleo, reduziu em 9% suas importações desses produtos no mês passado, diante de custos mais altos e dificuldade de acesso a mercados.
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Importantes fornecedores de alimentos, como Brasil, Argentina, Canadá e Austrália, também enfrentam aumento de custos de produção e possível queda de produtividade, caso reduzam a aplicação de insumos.
Diante da perspectiva de oferta menor, a Rússia propôs aos países do Brics — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e mais seis integrantes recentes — a criação de uma reserva conjunta de alimentos, informou a agência Reuters em 13 de maio. Segundo Zafalon, a medida diminuiria a disponibilidade de produtos para nações com menor capacidade de produção.
Para o colunista, o cenário atual inverte a promessa de Trump de conter a inflação e encerrar conflitos, trazendo novos custos que podem agravar o quadro de insegurança alimentar em escala global.