
A Aeris Energy, fabricante de pás para geração de energia eólica, entrou na Justiça com um pedido de proteção contra credores e iniciou negociações com os principais detentores de sua dívida. Enquanto isso, suas debêntures são negociadas no mercado secundário por apenas 11,54% do valor de face — o que representa desconto de 88,5%.
A chamada tutela cautelar suspende por até 60 dias as cobranças de dívidas e as execuções judiciais contra a companhia. O instrumento costuma anteceder um processo de recuperação judicial (RJ) ou recuperação extrajudicial (RE).
Se a Aeris entrar em recuperação judicial ou extrajudicial, o prazo para negociar com os credores pode chegar a 180 dias. Os dois meses iniciais da tutela cautelar já são contabilizados dentro desse período de seis meses.
Por enquanto, os títulos continuam podendo ser negociados livremente no mercado secundário, ambiente em que investidores compram e vendem papéis já emitidos. Se houver recuperação judicial, os detentores das debêntures passarão a integrar a lista de credores e os títulos deixarão de ser negociados.
Na recuperação extrajudicial, a negociação no mercado secundário é mantida. Entretanto, a experiência descrita no caso mostra que os descontos podem reduzir os títulos a uma pequena fração do valor original. Para as debêntures da Aeris, uma cotação abaixo da média atual de 11% do valor de face praticamente selaria a perda do investimento.
Um levantamento da plataforma de crédito privado Vitrify aponta que a Aeris tem uma dívida de cerca de R$ 1,5 bilhão com investidores de duas séries de debêntures.
A participação de pessoas físicas corresponde a apenas 0,8% do crédito total. Já os fundos de investimento concentram 48% das debêntures. O levantamento identifica oito casas com posições nos papéis.
Debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos. Nesse caso, o investidor empresta dinheiro à companhia e recebe a promessa de remuneração e devolução do principal conforme as condições da emissão. O caso da Aeris mostra que esses títulos estão sujeitos ao risco de crédito da empresa emissora.

Há algumas semanas, os papéis eram negociados a 11,54% do valor de face. Há dois anos, o desconto era de apenas 14%, uma diferença que evidencia a forte desvalorização observada no período.
Nenhuma das debêntures realiza pagamentos desde julho de 2024. Com os atrasos, o saldo devedor aumentou. Nos últimos dois anos, além da correção pelas taxas, a dívida teve crescimento real superior a 15% em relação ao valor emitido originalmente.
A situação atual ocorre após uma repactuação completa da dívida realizada em 2025. Assembleias de debenturistas não atingiram quórum em dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. Em uma terceira convocação, realizada em 28 de março de 2025, foi aprovada a extensão do vencimento das duas emissões para 2030.
Na mesma ocasião, os debenturistas aprovaram:
Em maio de 2025, a empresa também fechou instrumentos de crédito com Banco do Brasil, BV e Santander para reperfilar cerca de 90% do endividamento total, mantendo as mesmas condições de prazo e taxa.
No mesmo mês, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a Aeris para RD(bra), classificação definida como “default restrito”. A agência considerou a troca da dívida uma reestruturação realizada em condições de estresse.
A crise financeira foi associada à forte redução dos projetos de geração eólica nos últimos dois anos, ao alto nível de endividamento e ao aumento do custo financeiro em um cenário de juros historicamente altos.

Seis anos atrás, quando realizou sua abertura de capital, o IPO, a Aeris era a maior fabricante nacional de pás para energia eólica. Nos anos seguintes, a companhia passou por uma reestruturação que não foi suficiente para resolver a crise financeira.
O setor de energia eólica enfrenta atualmente excesso de oferta de energia no sistema e aumento do curtailment. O termo se refere aos cortes de produção determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) diante de gargalos na infraestrutura de transmissão.
A geração eólica também enfrenta a concorrência da geração solar distribuída. Esse conjunto de fatores levou à redução dos investimentos em geração de eletricidade pelo vento. O montante caiu quase 70% entre 2023 e 2026: passou de R$ 35 bilhões há três anos para cerca de R$ 10 bilhões neste ano.
Em comunicado, a Aeris afirmou que a reestruturação não deve afetar suas operações, seus fornecedores ou seus clientes.
A Aeris solicitou a proteção na quinta-feira (21). Caso não consiga chegar a uma reestruturação amigável das dívidas, o processo poderá avançar para uma recuperação judicial ou extrajudicial.
Nos últimos dias, as varejistas Casas Bahia e Marabraz formalizaram pedidos de recuperação judicial. Antes disso, também recorreram à proteção cautelar para se blindarem de cobranças antecipadas de dívidas.
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