Deflação nos EUA derruba juros futuros no Brasil e reaquece debate sobre trajetória da Selic

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaAções16 horas atrás18 Visualizações

A surpresa de deflação de 0,4% no índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos em junho repercutiu imediatamente no mercado de juros. Lá fora, o rendimento dos Treasuries cedeu; aqui, a curva de Depósitos Interfinanceiros (DIs) devolveu ganhos da véspera e fechou a terça-feira (14) em forte queda.

O que aconteceu nos Estados Unidos?

O CPI negativo foi a maior queda mensal desde abril de 2020. No acumulado de 12 meses, a inflação desacelerou de 4,2% para 3,5%. Embora o Federal Reserve use preferencialmente o PCE como bússola, o CPI funciona como termômetro de curto prazo para o mercado medir o pulso da política monetária.

Logo após o dado, a ferramenta FedWatch passou a precificar 83,4% de chance de manutenção dos juros norte-americanos na reunião de 29 de julho, acima dos 63,1% projetados antes da divulgação. As apostas de alta para setembro também diminuíram.

Reação imediata dos Treasuries

  • Título de 2 anos: rendimento caiu de 4,263% para 4,191%.
  • Título de 10 anos: recuo de 4,610% para 4,587%.

Quando o juro de referência global cai, investidores tendem a buscar retorno onde ele ainda é alto, inclusive em países emergentes. Essa realocação ajuda a comprimir as taxas locais.

Por que isso afeta a curva de DI?

O DI reflete as expectativas para a Selic no futuro. Se os rendimentos norte-americanos cedem e o risco global diminui, o prêmio exigido pelos investidores para carregar títulos brasileiros também cai. O movimento é amplificado pela percepção de que um Federal Reserve menos agressivo abre espaço para o Banco Central do Brasil manter — ou até acelerar — o ciclo de cortes da Selic, iniciado em março.

Números da sessão

  • DI jan/27: recuo de 13,955% para 13,895% (-6 pontos-base).
  • DI jan/29: queda de 14,230% para 14,020% (-21 pontos-base).
  • DI jan/36: desvalorização de 14,395% para 14,280% (-11 pontos-base).

O papel do Tesouro Nacional

A queda também foi sustentada pelo leilão doméstico. O Tesouro vendeu 1,25 milhão de Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), atreladas à Selic, e apenas 150 mil Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-Bs), indexadas à inflação. Ao limitar a oferta de títulos de prazo mais longo, o órgão evita pressão de alta sobre as taxas reais.

Efeito prático para o investidor

Para quem investe em renda fixa, a sessão ilustra como eventos externos podem mexer na marcação a mercado de títulos prefixados e indexados à inflação. Taxas mais baixas valorizam aplicações já contratadas, mas reduzem o retorno de novos papéis com vencimentos longos. Por outro lado, o recuo nos Treasuries costuma aliviar o câmbio e, indiretamente, a inflação doméstica, fatores que entram no radar do Comitê de Política Monetária (Copom).

Enquanto a trajetória da Selic seguirá dependente de dados locais — como atividade, câmbio e IPCA —, o investidor iniciante deve lembrar que choques vindos do exterior podem alterar rapidamente os preços dos ativos, mesmo sem mudanças imediatas nas condições internas.

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