Estudo questiona proteção do ouro contra a inflação: correlação foi de 0,07

Um estudo conduzido por Rob Brown e Bo Wang, pesquisadores ligados à gestora americana Julex Capital, questiona uma das associações mais tradicionais do mercado financeiro: a ideia de que o ouro protege automaticamente o investidor contra a inflação.

Os autores encontraram uma correlação de apenas 0,07 entre o metal precioso e a inflação. A correlação varia de -1 a 1: quanto mais próxima de 1, mais dois fatores tendem a se mover na mesma direção; quanto mais perto de -1, mais tendem a seguir direções opostas. Um resultado próximo de zero, como 0,07, indica uma relação muito fraca.

Ouro não melhorou a proteção contra a perda de poder de compra

Além da baixa correlação, os testes indicaram que acrescentar ouro a uma carteira formada principalmente por ações e títulos não melhorou de maneira relevante a capacidade do portfólio de resistir à perda de poder de compra provocada pela inflação.

Os pesquisadores avaliaram diferentes estratégias. Entre elas estavam variar o tamanho da posição em ouro, comprar o metal somente depois que a inflação ultrapassasse determinados níveis e considerar cenários em que o investidor tivesse maior precisão ao prever os preços. Mesmo com essas mudanças, a conclusão permaneceu praticamente a mesma.

O resultado contraria uma associação construída ao longo de décadas. O ouro costuma ganhar espaço nas carteiras quando aumentam as preocupações com inflação, desvalorização das moedas ou instabilidade econômica.

Estudos anteriores também apontaram eficácia limitada

A desconfiança sobre o papel do ouro como indicador ou proteção contra a inflação não é recente. Em 2013, o então presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, afirmou ao Senado americano que os movimentos do ouro não eram bons indicadores da inflação. Na ocasião, ele também admitiu que nem mesmo sabia explicar completamente como o preço do metal era formado.

Rob Brown já havia chegado a uma conclusão semelhante em um estudo baseado em 105 anos de dados. A pesquisa comparou diferentes commodities como proteção contra choques inflacionários.

Cestas diversificadas de commodities, petróleo e gás natural apresentaram resultados melhores. Já o ouro e os títulos americanos indexados à inflação, conhecidos como TIPS, mostraram eficácia relativamente baixa.

Estudo questiona proteção do ouro contra a inflação: correlação foi de 0,07 - imagem 2
Foto: Foto: reprodução

Por que a fama do ouro continua?

Para Brown e Wang, parte da explicação está menos na economia e mais na psicologia dos investidores. Os pesquisadores apontam a influência de vieses como:

  • Comportamento de manada: seguir decisões adotadas por muitos outros investidores;
  • Anc oragem: dar peso excessivo a uma referência ou crença inicial;
  • Viés de confirmação: prestar mais atenção às situações que reforçam uma convicção anterior e dar menos peso aos episódios que a contradizem.

Nesse caso, o investidor pode acreditar previamente que o ouro protege contra a inflação, destacar os períodos em que os dois caminharam na mesma direção e ignorar os momentos em que isso não aconteceu.

O metal ainda pode ter função de diversificação

A conclusão do estudo não significa que o ouro não possa fazer parte de uma carteira. O metal pode funcionar como diversificador e costuma atrair investidores em momentos de incerteza financeira ou geopolítica.

A demanda por esse tipo de ativo continuou forte no primeiro semestre de 2026. Fundos de ouro negociados em bolsa receberam cerca de US$ 8 bilhões líquidos no período, segundo o World Gold Council.

Para quem avalia o ouro como parte de uma estratégia financeira, o estudo destaca que sua presença na carteira não deve ser associada automaticamente à proteção contra a inflação. Os resultados apresentados indicam uma relação fraca entre o metal e a alta generalizada dos preços, embora o ativo ainda possa ser procurado por sua função de diversificação ou em períodos de incerteza.

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