FIDCs ligados à Casas Bahia ofereciam retorno de CDI mais 30% ao ano e chegaram a R$ 1,9 bilhão

Trader Iniciante - RedaçãoTrader Iniciante - RedaçãoMercado Financeiro10 minutos atrás7 Visualizações

Fundos de direitos creditórios (FIDCs) ligados à Casas Bahia chegaram a oferecer retorno de até CDI mais 30% ao ano e tiveram crescimento acelerado mesmo durante a crise financeira da varejista. O patrimônio líquido de um dos fundos subiu de R$ 990 milhões, em maio de 2025, para R$ 1,9 bilhão pouco mais de um ano depois.

O crescimento ocorreu apesar de a empresa estar em recuperação extrajudicial desde 2024. Neste mês, a rede de lojas solicitou a conversão da recuperação extrajudicial em recuperação judicial, processo que pode afetar o recebimento dos créditos pelos FIDCs.

Como funciona um FIDC de risco sacado

Um FIDC reúne recursos dos cotistas para comprar valores que empresas têm a receber. No exemplo apresentado, um fabricante de geladeiras teria R$ 100 mil para receber da Casas Bahia em 90 dias, mas poderia preferir antecipar o pagamento. O fundo, então, pagaria R$ 90 mil ao fornecedor e ficaria com o direito de receber os R$ 100 mil da varejista.

A diferença de R$ 10 mil entre o valor antecipado e o valor original a receber representa a remuneração da operação e pode formar o retorno dos cotistas. Nesse arranjo, a Casas Bahia é o sacado, termo usado para identificar o agente que serve de lastro para a operação.

O risco central está na possibilidade de o sacado não pagar. Se a recuperação judicial da Casas Bahia for aprovada, esse risco tende a se concretizar para os FIDCs estruturados nesse modelo, conhecido como “risco sacado”.

Quais são os principais fundos envolvidos

Nas demonstrações de resultados, o grupo Casas Bahia lista pelo menos três fundos desse tipo, criados para financiar sua cadeia de fornecedores. O maior é o IBCB AF01, com patrimônio de R$ 1,9 bilhão. A empresa também menciona FIDCs com patrimônio de R$ 240 milhões e o GCB Fornecedores Comerciais, com patrimônio líquido de R$ 790 milhões.

Considerados em conjunto, os três portfólios aparecem entre os credores com cerca de R$ 1,4 bilhão em créditos a receber.

Com a recuperação judicial, os pagamentos aos FIDCs são interrompidos até que a empresa consiga cumprir o plano de reestruturação, o que pode levar alguns anos. Em processos desse tipo, as dívidas financeiras também podem sofrer um haircut, expressão usada para designar um desconto no valor devido. Essa redução costuma superar 90% do valor original.

O IBCB AF01 aparece na lista de credores com quase R$ 1,1 bilhão a receber da Casas Bahia. O montante equivale a 58% do patrimônio do fundo. Caso seja aplicado um desconto superior a 90%, o fundo pode receber menos de R$ 110 milhões.

Investidores profissionais e institucionais

Os FIDCs de risco sacado da varejista captaram recursos junto a investidores profissionais e institucionais. No material, são considerados investidores profissionais aqueles que possuem mais de R$ 10 milhões em aplicações financeiras.

Um gestor que pediu anonimato afirmou que, nesse tipo de estrutura, a maior parte dos recursos costuma vir do próprio sacado — neste caso, a Casas Bahia. A participação da varejista nesses portfólios alcança R$ 1,8 bilhão.

Há ainda cerca de R$ 1,8 bilhão em cotas seniores, adquiridas por investidores profissionais e institucionais. As cotas seniores são apresentadas como uma classe específica dentro da estrutura dos fundos.

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Foto: Foto: reprodução

A Casas Bahia também aparece como devedora de outros cinco FIDCs que forneceram crédito à companhia. A maior dívida desse grupo é de R$ 4,8 milhões com o Quatá Multissetorial, valor equivalente a 2% do patrimônio do FIDC. Somadas, as dívidas com esses outros veículos chegam a R$ 16 milhões.

FIDCs ligados ao crediário da varejista

Além dos fundos de risco sacado, seis FIDCs principais ajudaram a financiar a estrutura de crediário da Casas Bahia:

  • Feeder;
  • Red Asset (Casas Bahia CDC);
  • Jive (FGCB III Multicarteira);
  • IBCB BS (IBCB Crediário);
  • Casas Bahia;
  • EP Banqi.

Nesse modelo, o impacto tende a ser reduzido porque os recebíveis antecipados são detidos pela própria varejista quando ela concede crédito. Os pagamentos são feitos pelos clientes que aderiram aos carnês.

Impacto sobre o mercado de crédito

Embora o evento envolvendo a Casas Bahia tenda a ter impacto limitado para investidores de FIDCs do varejo, ele prejudica a percepção de risco no mercado em geral.

“Tem uma questão de reputação da mesma maneira que a RJ da Casas Bahia chamou atenção para a situação apertada do varejo de uma maneira mais ampla”, afirmou o gestor que pediu anonimato.

Na avaliação do gestor, o caso expôs a dependência que muitas empresas de consumo cíclico passaram a ter das estruturas de FIDCs para financiar suas operações. Com os bancos restringindo o crédito para companhias muito endividadas, essas empresas passaram a recorrer a fundos de antecipação de recebíveis. Nesse processo, o risco acaba sendo assumido pelo mercado e pelos investidores.

O grupo Casas Bahia acumula quase R$ 4 bilhões em dívidas com FIDCs. A maior parte desse valor foi captada enquanto a empresa já estava em recuperação extrajudicial, iniciada em junho de 2024.

Na recuperação judicial, as dívidas com os FIDCs entram na fila de credores. Como os descontos podem ser elevados após a reestruturação, os fundos são obrigados a interromper as amortizações e repassar diretamente aos cotistas as perdas decorrentes do processo.

Sobre o repórter

Sérgio Tauhata é repórter de Investimentos. Formado pela USP, acumula duas décadas de experiência em veículos como Valor Econômico e Folha de S.Paulo. Especialista em macroeconomia e mercado financeiro, possui 15 prêmios de jornalismo, incluindo reconhecimentos de B3, CVM, Abecip, Abrapp, CNseg e Sebrae.

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