Os fundos de crédito privado negociados em bolsa, conhecidos como business development companies (BDCs), voltaram a ganhar a atenção de investidores em abril depois de registrarem, no mês anterior, o menor nível de preços desde 2022.
No fim de março, a relação preço/valor patrimonial de vários desses veículos chegou a 80,5%, de acordo com o índice Cliffwater BDC. A desvalorização foi atribuída ao receio de que os credores estejam superexpostos a empresas de software ameaçadas por avanços em inteligência artificial. O movimento coincidiu com resgates que ultrapassaram US$ 15 bilhões em BDCs não listadas, o que reforçou a pressão sobre as cotações no mercado público.
Nas últimas semanas, o interesse de caçadores de barganhas ajudou a impulsionar as ações dos fundos listados. Até o fechamento de quinta-feira, o índice Cliffwater BDC avançava cerca de 2,4% no mês, aproximando-se de 86% do valor patrimonial líquido, patamar mais alinhado às médias históricas.
A Ares Capital Corp. ilustra a recuperação: após encerrar março negociada a 87,5% do valor patrimonial, suas ações passaram a valer cerca de 93% desse parâmetro.
O próximo catalisador para o segmento será a divulgação dos resultados trimestrais. A Ares Capital publica números em 28 de abril, seguida por veículos geridos por Blue Owl Capital, BlackRock e Blackstone. Investidores acompanharão de perto sinais sobre eventuais perdas de crédito e reavaliações de portfólios, sobretudo em posições de software.
Segundo a Fitch Ratings, a expectativa é de alguma pressão decorrente da ampliação dos spreads no setor de tecnologia, o que pode reduzir o valor patrimonial dos fundos mesmo na ausência de inadimplência efetiva.
Parte dos gestores tem aproveitado o descompasso entre BDCs listadas e não listadas. Ao resgatar cotas de veículos fechados pelo valor patrimonial e reinvestir em versões abertas que ainda negociam com desconto, investidores buscam capturar a diferença de preços. Mike Petro, gestor da Putnam Investments, afirma que essa dinâmica tem impulsionado as entradas em seu ETF dedicado a BDCs.
Imagem: infomoney.com.br
Alguns fundos, como a Saba Capital, comandada por Boaz Weinstein, chegaram a oferecer a compra de participações em BDCs não listadas com abatimento elevado, reforçando a liquidez para quem deseja sair dessas estruturas.
Apesar da recuperação parcial, nem todos veem espaço para otimismo. Scott Opsal, diretor de investimentos do Leuthold Group, avalia que os rendimentos oferecidos pelos fundos listados não compensam o risco de perdas futuras em empréstimos a empresas de software, que representam cerca de 20% dos portfólios segundo cálculo do Barclays de fevereiro.
No acumulado do ano até quinta-feira, títulos corporativos investment grade dos Estados Unidos rendem 0,4% e high yield, 1,2%. Já o índice Cliffwater BDC apresenta queda de 7,8%, mantendo-se abaixo dos 94% do valor patrimonial registrados no início de 2024 e da média de 98% observada nos últimos cinco anos.
Mesmo assim, para gestores como Petro, há potencial de alta caso não ocorra um choque econômico significativo. Ele considera que a venda recente foi “exagerada” e que as cotações podem continuar se ajustando para cima caso não surjam surpresas negativas nos resultados do primeiro trimestre.