Gigantes dos EUA escapam de US$ 40 bi em impostos ao usar paraísos fiscais, mostra levantamento

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro1 minuto atrás7 Visualizações

Um levantamento de quase 500 balanços de empresas dos Estados Unidos mostra que multinacionais direcionaram centenas de bilhões de dólares em lucros para jurisdições de baixa ou nenhuma tributação — como Malta, Bermudas, Ilhas Cayman e Chipre — evitando cerca de US$ 40 bilhões em imposto de renda desde o início de 2025.

O que mudou na regra do jogo

O uso dos chamados paraísos fiscais não é novo, mas ganhou impulso quando o governo norte-americano se retirou, em 2025, de um esforço da OCDE para estabelecer um imposto corporativo mínimo global de 15% (o “Pilar 2”). A decisão, tomada por ordem executiva do então presidente Donald Trump em seu primeiro dia de volta ao cargo, eliminou a pressão internacional sobre companhias sediadas nos EUA.

A retirada enfraqueceu a tentativa de fechar brechas que permitiam a transferência artificial de lucros para países com alíquotas perto de zero, mesmo onde as empresas não mantêm funcionários, fábricas ou consumidores.

Quem economizou mais

  • American Express: economizou US$ 423 milhões em 2025 usando a ilha de Jersey.
  • PayPal: cortou quase metade da fatura fiscal por meio de unidades em Singapura.
  • Stanley Black & Decker: reduziu em US$ 27 milhões sua conta via Chipre.
  • Abbott Laboratories: alocou todos os lucros a uma subsidiária sem funcionários em Malta, poupando US$ 336 milhões.
  • Outras companhias citadas incluem Walmart, Uber, Mastercard, Pepsi, Crocs, Merck, Honeywell e Cigna.

Como a estratégia funciona

O mecanismo mais comum é registrar patentes, marcas ou direitos de propriedade intelectual em subsidiárias localizadas em paraísos fiscais. Dessa forma, o lucro contábil aparece no país de menor imposto, mesmo que a venda ocorra em outro mercado. A prática é legal, mas pode ser contestada se a Receita considerar que falta “substância econômica” — conceito usado para exigir que a empresa tenha atividade real onde declara o ganho.

No pacote tributário de 2017, os EUA criaram um imposto para lucros transferidos ao exterior, mas permitiram a consolidação de resultados de países com alíquotas elevadas com aqueles de paraísos fiscais. A combinação dilui a carga efetiva e mantém a vantagem do planejamento agressivo.

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Impacto econômico

Os US$ 40 bilhões que deixaram de entrar nos cofres americanos equivalem a triplicar o orçamento anual da Administração Federal de Aviação ou da Alfândega e Proteção de Fronteiras. Para investidores, a conta é indireta: menores receitas públicas podem significar mais endividamento e, no limite, pressão sobre Treasuries, taxa de juros e dólar — variáveis que influenciam emergentes como o Brasil.

Por que isso importa para o investidor brasileiro

  • Volatilidade cambial: ajustes fiscais ou debates sobre aumento de impostos nos EUA tendem a afetar o humor do mercado global e o valor do dólar.
  • Multinacionais listadas na B3: empresas brasileiras ou estrangeiras com ADRs podem enfrentar escrutínio maior sobre suas próprias estruturas, elevando custos de compliance.
  • Reforma tributária local: o Brasil discute aproximar-se de padrões internacionais. Exemplos de fora servem de pressão para endurecer regras contra evasão, o que pode alterar projeções de lucro de setores intensivos em intangíveis, como tecnologia e farmacêuticas.

Possíveis próximos passos

A Receita norte-americana já contesta mais de US$ 1 bilhão em benefícios fiscais da Abbott e de outras empresas. Além disso, parte da União Europeia deve implementar plenamente o imposto mínimo global até 2029, reduzindo o espaço para práticas semelhantes em Malta e em outras ilhas do bloco.

No curto prazo, contudo, especialistas veem espaço para continuidade da estratégia, sobretudo enquanto Washington não aderir formalmente ao acordo da OCDE. Para o investidor, acompanhar o noticiário tributário é fundamental para entender movimentos de lucro e fluxo de caixa que podem impactar dividendos, recompra de ações e, por tabela, a precificação na Bolsa.

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