IA redireciona infraestrutura da mineração de Bitcoin, mas não elimina o setor

Trader Iniciante - RedaçãoTrader Iniciante - RedaçãoCriptomoedas13 minutos atrás7 Visualizações

A expansão da inteligência artificial (IA) está mudando a distribuição de terrenos, energia, capital e infraestrutura usados pela mineração de Bitcoin, mas não representa necessariamente o fim do setor. A avaliação é de Haipo Yang, fundador e CEO da ViaBTC e da CoinEx, em análise sobre o novo ciclo da atividade.

O hashrate da rede, indicador do poder computacional dedicado à mineração, ultrapassou 1,1 ZH/s em outubro de 2025 e depois caiu para 900 EH/s. No mesmo período de ajustes, a dificuldade da mineração recuou 11,16% em fevereiro e 10,09% em junho, movimentos descritos como raros desde 2021.

Ao mesmo tempo, empresas de mineração passaram a redirecionar parte do foco para IA e computação de alto desempenho, conhecida pela sigla HPC. A Core Scientific registrou margem bruta negativa de 56% em sua mineração própria no segundo trimestre, enquanto o negócio de colocation gerou quase US$ 80 milhões em lucro bruto. Na TeraWulf, contratos de HPC já correspondiam a 71% da receita total.

A disputa está na infraestrutura, não nos equipamentos

Embora a impressão inicial seja de que a IA está simplesmente retirando hashrate da rede, a competição ocorre principalmente por recursos compartilhados. Os equipamentos usados em cada atividade não são intercambiáveis: minerar Bitcoin com GPUs não é economicamente viável, enquanto um ASIC desenvolvido para o algoritmo SHA-256 não consegue executar grandes modelos de IA.

A disputa, portanto, envolve capacidade de produção de chips, capital, terrenos, energia e infraestrutura de data centers. Entre esses recursos, o acesso rápido a grandes quantidades de energia confiável tornou-se especialmente escasso.

Para uma empresa de IA, dois terrenos de tamanho semelhante podem ter valores muito diferentes. Um deles pode contar com subestações, conexão à rede e fibra óptica já instaladas, permitindo receber cargas de IA após as atualizações necessárias. O outro pode estar próximo de uma usina, mas ainda exigir anos de trabalho para garantir o fornecimento de energia.

O tempo é decisivo para a IA porque chips e modelos evoluem rapidamente, enquanto subestações e outras estruturas de energia levam anos para ser construídas. Ter capacidade elétrica disponível significa economizar tempo.

Muitas mineradoras asseguraram terrenos, subestações e capacidade elétrica anos atrás, quando esses recursos eram menos disputados. Agora, empresas de IA pagam consideravelmente mais pela mesma infraestrutura. Na avaliação de Yang, as mineradoras não vendem apenas eletricidade: vendem acesso a uma estrutura de energia já instalada.

Por que a mineração ainda pode aproveitar energia excedente

Fora dos grandes data centers, pequenos e médios mineradores operam em configurações diferentes. Um exemplo é o de uma fábrica que conecta alguns equipamentos de mineração ao sistema solar instalado em seu telhado.

A produção da fábrica continua tendo prioridade. Quando há excedente solar, os equipamentos de mineração funcionam; quando a oferta diminui, eles reduzem o consumo ou desligam. Nesse modelo, os operadores não instalaram os painéis para minerar Bitcoin. Eles aproveitam uma eletricidade que, em outras condições, teria pouco valor econômico.

Por isso, a mineração não precisa funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana. O objetivo é extrair valor de energia que permaneceria ociosa. Depois que a demanda normal é atendida, o excedente que gera pouco retorno na rede ou não pode ser exportado por limitações locais de transmissão pode ser direcionado aos equipamentos.

As máquinas de mineração são cargas ajustáveis: operam quando há energia excedente, reduzem o consumo quando o fornecimento diminui e desligam quando necessário. Elas não precisam receber eletricidade no mesmo horário todos os dias nem dependem de um sistema caro de alta disponibilidade.

A diferença entre os modelos pode ser resumida assim: a IA precisa de energia disponível quando for necessária; a mineração pode operar quando houver energia excedente e barata.

A IA também utiliza energia solar e eólica, e muitos operadores constroem infraestrutura junto a fontes renováveis. Porém, quando uma geração intermitente alimenta cargas de treinamento ou inferência de alta disponibilidade, normalmente são necessários armazenamento, energia da rede ou outra fonte estável para transformar essa geração em eletricidade continuamente disponível.

Esse processo tem custo. Um quilowatt-hora produzido por energia solar ao meio-dia e outro disponível sob demanda à noite representam fisicamente a mesma quantidade de energia, mas possuem valores econômicos diferentes por causa do momento em que podem ser utilizados.

O grupo de energia ENGIE afirmou neste ano que avaliava sistemas de armazenamento em baterias ou instalações de mineração de Bitcoin em seu projeto solar Sol do Assú, no Brasil. A análise estava relacionada às limitações da rede, que fazem com que nem toda a geração solar disponível possa ser absorvida.

O mesmo problema aparece em escalas diferentes: pode envolver um sistema no telhado com uma dúzia de equipamentos ou um projeto solar de centenas de megawatts. A questão é o que fazer com uma unidade de eletricidade que ninguém precisa naquele momento e que não pode ser facilmente enviada para outro lugar.

A IA paga mais por energia estável e altamente disponível. A mineração, por sua vez, pode utilizar eletricidade menos conveniente, como energia eólica e solar que seria desperdiçada, gás associado em campos de petróleo, pequenas hidrelétricas em locais remotos e períodos de preços negativos. Essas fontes podem ser inadequadas para data centers que operam continuamente, mas ainda viáveis para a mineração.

Equipamentos usados podem mudar de localização

Quando grandes mineradoras reduzem suas operações próprias, equipamentos podem chegar ao mercado secundário. Uma máquina que deixou de ser viável em um data center com eletricidade cara ainda pode funcionar em outra instalação.

Se for vendida por um preço menor e transferida para um local com hidrelétrica barata, energia solar excedente ou outra fonte de baixo custo, a mesma máquina pode voltar a apresentar viabilidade econômica.

Equipamentos baratos e eletricidade barata resolvem problemas diferentes. A decisão de manter a mineração funcionando depende principalmente da eficiência energética da máquina e do custo da eletricidade. Um preço de aquisição menor reduz a necessidade de capital, encurta o período de retorno do investimento e diminui a pressão de financiamento.

Em uma fábrica que utiliza excedente solar, por exemplo, equipamentos usados e mais baratos podem fazer sentido mesmo que sejam menos eficientes. O custo inicial de capital é menor, e a operação consegue tolerar um nível de utilização mais baixo.

Diferentes gerações de equipamentos podem, assim, se adequar a diferentes faixas de preço da eletricidade.

Mineradores menores podem ganhar espaço

Nos últimos anos, a mineração de Bitcoin passou por um processo de institucionalização. Grandes empresas captaram recursos em bolsa e construíram data centers medidos em centenas de megawatts. Esse caminho, porém, pode deixar de ser a única direção de crescimento.

As mineradoras listadas devem continuar importantes, mas o crescimento futuro pode não vir principalmente delas. Operadores privados com acesso direto a energia barata, mineradores pequenos e médios e projetos de energia podem voltar a competir com as grandes companhias.

Yang afirma que, nos dez anos de operação do ViaBTC Pool, a empresa sempre atendeu mineradores menores, que trabalham sob condições de energia muito diferentes. Esses operadores raramente aparecem porque não publicam relatórios de resultados nem realizam teleconferências com investidores.

Com a expansão da mineração para sistemas solares distribuídos, fontes de energia remotas e ambientes fragmentados, a presença desses participantes se torna mais visível. Quanto mais diversificada for a base de mineradores, maior será a importância de uma infraestrutura operacional madura.

Grandes empresas constroem operações próprias e contam com equipes de gestão. Os mineradores menores, por outro lado, tendem a se concentrar em aspectos como serviço estável, cálculo transparente das recompensas, métodos de pagamento flexíveis, baixo custo e menor complexidade.

Um pool de mineração padroniza parte dessa complexidade para que participantes de diferentes tamanhos possam se concentrar em suas atividades.

Nessa perspectiva, o efeito da IA se parece menos com uma substituição completa e mais com uma realocação de recursos. Locais, energia e capital de maior qualidade migram para quem mais os valoriza, enquanto os equipamentos continuam procurando fontes de eletricidade economicamente viáveis.

A conclusão apresentada por Yang é que a IA não expulsa necessariamente a mineração. Os locais mais adequados para data centers de IA podem ser destinados a essa atividade, enquanto a eletricidade adequada à mineração continua encontrando equipamentos capazes de utilizá-la.

Como o ajuste de dificuldade altera a economia da mineração

Se vários mineradores desligarem seus equipamentos ao mesmo tempo, o hashrate cai e os blocos passam a ser produzidos mais lentamente. No ajuste seguinte, a dificuldade da rede diminui.

Com uma dificuldade menor, o mesmo equipamento pode produzir mais Bitcoin no mesmo período. Isso reduz o preço de eletricidade no qual a máquina deixa de ser viável e pode tornar economicamente possível a reativação de equipamentos que haviam sido desligados.

O mecanismo não impede que mineradores deixem a rede. Ele altera a economia da atividade depois de uma mudança no hashrate, fazendo com que o mercado refaça seus cálculos.

O hashrate que retorna pode vir de uma grande mineradora com energia barata contratada por longo prazo ou de participantes menores que utilizam hidrelétrica, excedente solar e outras fontes não convencionais.

Conforme o hashrate sai e retorna, o sistema busca um novo equilíbrio, determinado pelos custos de eletricidade, pela eficiência dos equipamentos e pelo preço do Bitcoin.

O ajuste de dificuldade não elimina as implicações relacionadas à segurança da rede. O hashrate total importa porque afeta o custo de um ataque. Ainda assim, a análise considera simplista presumir que uma queda temporária do hashrate significa que a rede caminha necessariamente para uma crise de segurança.

O próximo teste citado é o halving de 2028

Em 2028, o Bitcoin terá seu quinto halving, evento em que a recompensa fixa paga aos mineradores será reduzida pela metade.

Não há certeza sobre como evoluirão a demanda por IA, o preço do Bitcoin ou a regulação até lá. O ponto conhecido é que a recompensa cairá pela metade.

Se preços mais altos do Bitcoin, receitas maiores com taxas e ajustes posteriores da rede não forem suficientes para compensar a redução, os mineradores enfrentarão uma pressão maior sobre a atividade.

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