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O futuro das debêntures incentivadas — títulos de dívida emitidos por empresas para financiar projetos de infraestrutura com isenção de Imposto de Renda para a pessoa física — voltou ao centro do debate na Expert XP, em São Paulo. Gestores de grandes casas de investimento defenderam que o benefício fiscal, criado em 2011 para atrair investidores de longo prazo, precisa ser revisto diante do atual ambiente de juros altos e de pressão sobre o Orçamento público.
Petrônio Cançado, sócio e head de crédito privado da Occam, afirmou que “não dá para continuar com isso por muito tempo”. Segundo o gestor, embora a isenção barateie a captação das empresas, ela representa renúncia de receita em um momento em que o governo busca equilibrar as contas. A avaliação foi endossada por Pierre Massari Jadoul, diretor-executivo da ARX Investimentos, para quem a retirada gradual de incentivos seria natural após mais de uma década de maturação do mercado.
O incentivo nasceu em um cenário em que o BNDES dominava o financiamento de infraestrutura. A ideia era transferir parte desse fardo ao mercado de capitais. Nos últimos anos, mudanças nas regras de outros papéis isentos — como LCIs, LCAs, CRIs e CRAs — reduziram a oferta de alternativas, ampliando a demanda por debêntures e comprimindo os spreads (diferença entre o rendimento pago pelo título e a taxa básica de juros).
Leonardo Ono, gestor de crédito privado da Legacy Capital, lembrou que a Lei 12.431/11 vincula o dinheiro captado a projetos específicos, o que, na prática, “carimba” o recurso para infraestrutura. Para ele, tributar a renda das debêntures elevaria o custo de financiamento e, em cadeia, o preço final para o consumidor.
Mesmo reconhecendo o sucesso da lei, Ono concorda que a principal barreira atual é o comportamento de parte dos investidores de crédito privado, que esperam volatilidade nula em títulos de renda fixa. Ele vê um descompasso: “Aceita-se oscilações na Bolsa, mas não na carteira de crédito”.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
O debate ocorre em um momento em que a Selic permanece em patamar elevado, o que torna aplicações pós-fixadas atreladas ao CDI naturalmente atraentes para o investidor iniciante que deseja previsibilidade. Contudo, Jadoul faz um alerta: “Não vamos conviver com juros reais de 8% para sempre”. Para ele, se o governo ajustar as contas, a taxa básica tende a recuar, e quem ficar apenas no pós-fixado pode perder a recuperação dos preços de ativos prefixados ou atrelados à inflação. No cenário oposto, se o ajuste não vier e a inflação subir, o CDI deixaria de ser blindagem total.
Por ora, não há proposta oficial de mudança. Ainda assim, a simples possibilidade de revisão já provoca discussões sobre como equilibrar a necessidade de investimento em infraestrutura com a sustentabilidade fiscal, tema cada vez mais sensível para quem acompanha o mercado de renda fixa.
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