
Antigos campos de golfe se tornaram uma alternativa para a expansão da energia solar no Japão, onde encontrar terrenos para grandes usinas é um dos obstáculos enfrentados pelos empreendedores. Essas áreas já concentram cerca de 9% da capacidade das instalações solares de maior porte do país, segundo análise da BloombergNEF que considera projetos a partir de 0,9 megawatt.
A conversão desses terrenos também aparece nos próximos empreendimentos: cálculos da Bloomberg apontam pelo menos 1 gigawatt em projetos solares anunciados ou em construção sobre campos de golfe japoneses. O volume corresponde a aproximadamente 10% da carteira atual de projetos.
Em um território montanhoso e densamente povoado, os campos estão entre as áreas abertas que ainda comportam instalações desse tamanho. Multiplicados durante a prosperidade econômica dos anos 1980, eles representam uma herança da bolha econômica japonesa que passou a integrar a transição energética. Algumas das maiores usinas solares do país já foram construídas nesses espaços.
Um dos empreendimentos planejados está no Minohara Country Club, na província de Gunma, a cerca de duas horas do centro de Tóquio, capital japonesa. Seus gramados atravessam colinas arborizadas e devem dar lugar a fileiras de painéis solares nos próximos anos.
A construtora Kamisato Kensetsu comprou o campo de 27 buracos em 2025 e pretende instalar no local uma capacidade de 152 megawatts. Trata-se de um dos maiores projetos solares previstos para o Japão.
Daisuke Toya, diretor da empresa, afirma que já não há interesse em desenvolver grandes usinas solares e atribui essa situação à falta de espaço. Em sua avaliação, comprar o campo de golfe para aproveitar o terreno foi a alternativa que restou à construtora.
As contas do clube ajudam a explicar o interesse pela mudança de atividade. Mesmo cobrando ¥ 5 mil, equivalentes a US$ 31,87, por um dia inteiro de jogo, o Minohara não consegue atrair clientes suficientes. Segundo Toya, o prejuízo supera ¥ 2 milhões por ano.
O clube permanece aberto durante a preparação do empreendimento. Apenas as avaliações ambientais e as demais etapas de planejamento podem consumir até quatro anos. A previsão é encerrar as atividades do campo em 2030, quando a construção da usina deve começar.
Para Andrew Chapman, professor da Universidade de Kyushu, o principal desafio dos incorporadores é localizar áreas onde seja efetivamente possível construir. Ele estima que o conjunto dos terrenos tecnicamente adequados à geração solar e eólica poderia produzir 14 vezes a eletricidade consumida pelo Japão em um ano.

Esse potencial, porém, não significa que todos os projetos sejam viáveis. As usinas precisam reunir boa insolação, conexão com a rede elétrica e distância razoável de áreas residenciais — condições presentes em muitos campos de golfe.
A EDP, que colocou recentemente em operação uma usina em um antigo campo na província de Fukushima, afirma que esses terrenos permitem desenvolver grandes projetos sem a necessidade de derrubar extensas áreas de árvores.
A resistência local continua sendo outro entrave às grandes instalações solares. Comunidades manifestam preocupação com desmatamento, deslizamentos e alterações na paisagem. A primeira-ministra Sanae Takaichi também se posicionou contra projetos desse tipo.
A instalação de painéis solares ganhou impulso no Japão depois do desastre nuclear de Fukushima, em 2011, que levou ao desligamento dos 54 reatores do país. O governo passou então a garantir a compra de eletricidade renovável a preços atraentes para os investidores.
A expansão alcançou seu ponto máximo em 2015 e desacelerou conforme os incentivos foram reduzidos. Essa perda de ritmo dificulta os planos governamentais: a projeção oficial prevê que a energia solar responda por 23% a 29% da eletricidade até 2040, frente aos 9,8% registrados no ano fiscal de 2023.
Embora os antigos campos de golfe permaneçam entre as alternativas mais viáveis para grandes usinas, sua disponibilidade é limitada. A incorporadora Renova já passou a investir em instalações menores em terras agrícolas abandonadas.
O governo também destina investimentos a células solares de perovskita. No futuro, essa tecnologia poderia ocupar telhados, paredes e outras superfícies que não comportam painéis convencionais, mas sua adoção em larga escala ainda está distante.
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