Relatório revela avanço da lavagem de dinheiro via criptomoedas por facções do narcotráfico no Brasil

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro3 horas atrás7 Visualizações

A presença do Brasil nas rotas sul-americanas de cocaína voltou a aparecer nas estatísticas de lavagem de dinheiro, agora em pleno ambiente digital. Relatório da Chainalysis mostra que organizações ligadas ao narcotráfico – incluindo facções como PCC e Comando Vermelho – já lideram o volume de criptomoedas movimentado de forma ilícita em exchanges que operam no país.

Três grupos concentram mais da metade do dinheiro sujo

  • Rede de narcotráfico sul-americana
  • Redes chinesas de lavagem de dinheiro (CMLN)
  • Entidades russas sob sanções internacionais

Juntas, essas três categorias responderam por mais de 50% dos fluxos suspeitos registrados em 2025. Só as CMLN participam de cerca de 20% de toda a lavagem global em blockchain, segundo o estudo.

Stablecoins substituem os antigos “doleiros”

As stablecoins – criptomoedas atreladas a moedas como o dólar – passaram a dominar a atividade criminosa. Por terem cotação estável e liquidez internacional, elas replicam o papel dos doleiros no câmbio paralelo, facilitando transferências rápidas sem sacolas de dinheiro vivo. Para o investidor iniciante, essa migração ajuda a explicar por que reguladores no mundo todo discutem regras mais duras para emissores e corretoras que listam esse tipo de ativo.

Poucos endereços drenam a maioria dos valores

Mesmo com bilhões de dólares em jogo, a atividade ilegal é concentrada: entre 550 e 950 endereços receberam recursos suspeitos em exchanges brasileiras entre 2023 e início de 2026, mas apenas cinco detiveram até 90% do montante, segundo a Chainalysis. Essa peculiaridade facilita o trabalho de investigação, mas aumenta o risco de bloqueios repentinos em caso de ação coordenada das autoridades.

Por que isso importa para quem investe?

  • Custos de compliance: Exchanges locais podem elevar exigências de cadastro (KYC) e repassar custos aos usuários.
  • Prazo regulatório: Até 29 de outubro, corretoras precisam obter autorização definitiva do Banco Central. Quem não se adequar poderá encerrar operações ou reduzir funcionalidades.
  • Liquidez: Eventuais bloqueios a endereços suspeitos podem afetar volumes e provocar oscilações nos pares de negociação, principalmente em stablecoins.
  • Reputação do setor: Maior atenção de autoridades tende a aumentar a fiscalização e a cooperação internacional, o que pode inibir fraudes mas também alongar prazos de saques e depósitos.

Brasil: um dos maiores mercados cripto do mundo

Entre julho de 2024 e junho de 2025, cerca de US$ 318 bilhões circularam em redes blockchain a partir do Brasil – aproximadamente um terço de todo o volume da América Latina. O número reforça o tamanho da indústria cripto no país e explica o interesse de organizações criminosas em usar exchanges locais como porta de entrada para dólares digitais.

Entenda alguns conceitos

  • KYC (Know Your Customer): Procedimento de verificação de identidade exigido por reguladores para reduzir crimes financeiros.
  • Stablecoin: Criptomoeda cujo preço segue o de uma moeda tradicional (ex.: dólar), ajudando a driblar a volatilidade típica do Bitcoin.
  • Endereço (ou wallet): Equivalente a uma conta bancária na blockchain. Transações ficam públicas, mas os donos podem ser difíceis de rastrear.

Pressão regulatória deve aumentar

O novo marco legal das criptomoedas, que entrou em vigor em 2023, coloca o Banco Central como supervisor das exchanges. A proximidade do prazo de licenciamento pode acelerar a adoção de sistemas automatizados de monitoramento, algo já comum em bancos tradicionais para combater lavagem de dinheiro.

Para o investidor comum, a principal consequência prática é a provável padronização de exigências de documentação e relatórios de transações acima de determinados valores – movimento semelhante ao que ocorreu no mercado de fundos e no Tesouro Direto após a Lei de Prevenção à Lavagem de Dinheiro.

Embora a coleta de dados seja cada vez mais robusta, o relatório reforça que a maior parte das movimentações cripto permanece legítima. O desafio, segundo a Chainalysis, é impedir que a minoria criminosa continue usando a tecnologia para driblar fronteiras financeiras sem inviabilizar a inovação e o acesso dos investidores.

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