Lula inicia campanha de 2026 com foco em trabalhadores de aplicativos e emprego formal

Trader Iniciante - RedaçãoTrader Iniciante - RedaçãoAções12 minutos atrás8 Visualizações

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou neste domingo sua última campanha pela Presidência no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), local onde liderou greves há quase 50 anos. Aos 80 anos e em sua sétima campanha presidencial, Lula tenta aproximar o Partido dos Trabalhadores de uma geração com pouca ligação com sindicatos, fábricas e empregos formais.

O tema tem relevância econômica porque envolve a expansão do trabalho por aplicativos, a redução da participação do emprego com carteira assinada e o acesso a direitos trabalhistas e benefícios previdenciários. Para a eleição de outubro, o PT defende o fim da escala 6×1, com redução da jornada, e novas regras para trabalhadores de plataformas digitais.

Diante de uma multidão de cerca de 20 mil apoiadores, muitos vestidos de vermelho, Lula afirmou: “Obrigado a vocês trabalhadores e trabalhadoras desse país que um dia tiveram consciência de apostar que um igual a vocês é capaz de fazer mais por vocês do que um diferente de vocês”.

Emprego formal perdeu espaço, apesar da queda do desemprego

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentados no material mostram que o número de pessoas ocupadas cresceu, mas o emprego formal se tornou menos comum.

  • Em dezembro de 2010, quando Lula concluiu seu segundo mandato, a taxa de desemprego era de 5,3% e 46,7% dos trabalhadores tinham empregos formais.
  • Em dezembro de 2025, o desemprego havia recuado para 5,1%, o menor nível já registrado, enquanto a proporção de trabalhadores no regime CLT caiu para 38,2%.

O regime CLT é a forma de contratação associada à Consolidação das Leis do Trabalho e, no contexto apresentado, aparece relacionado a direitos trabalhistas e benefícios previdenciários. Lula disse a apoiadores: “Que futuro que você quer se você não investir no emprego?”. Na mesma ocasião, afirmou que seu governo criou “10 milhões e cem mil empregos formais nesses últimos três anos e meio”.

O presidente também reconheceu a mudança no mercado de trabalho: “Houve uma mudança substancial no mundo do trabalho”. Segundo Lula, o discurso do PT precisa ser adaptado a uma realidade que “não é só a carteira profissional assinada”.

Trabalho por aplicativos cresceu 170% em dez anos

O número de brasileiros que trabalham por meio de plataformas digitais chegou a 2,1 milhões. A estimativa do Banco Central, baseada em dados da Pnad Contínua, indica crescimento de 170% dessa força de trabalho entre 2015 e 2025.

Esse grupo reúne trabalhadores com perfis e prioridades diferentes. Darlan Almeida, de 27 anos, trabalha há sete anos fazendo entregas por aplicativos em São Bernardo do Campo, onde nasceu. Ele afirma que um emprego CLT lhe pagaria cerca de R$ 3 mil. Nos aplicativos, diz ganhar aproximadamente R$ 8 mil e ficar com cerca de R$ 5,5 mil depois das despesas com a moto.

Filho de nordestinos, Almeida conta que seu pai chegou a São Bernardo do Campo durante o auge da industrialização do ABC Paulista, na década de 1970, trabalhou como operário de fábrica e foi admirador de Lula até morrer. O entregador, porém, diz não ter herdado a admiração pelo presidente e afirma que não pensa muito em política. Ele se preocupa com melhorias para os entregadores, mas tem dúvidas sobre as propostas do governo.

“Eles não sabem do que a gente precisa nem como a gente trabalha. Deveriam passar um dia com a gente nas ruas”, afirmou Almeida.

Já o motorista Eduardo Marini Filho, de 51 anos, diz valorizar principalmente a flexibilidade das plataformas, e não as proteções associadas ao emprego formal. Depois de passar a maior parte da carreira em trabalhos temporários, afirma não ter intenção de voltar ao mercado tradicional.

Eleitor de direita, Marini reclama das condições de trabalho, mas argumenta que a regulamentação pode ameaçar a autonomia dos trabalhadores. “Se impuserem uma exigência mínima de tarifa, como o governo quer, acho que a Uber vai sair do país”, disse.

PT tenta regulamentar plataformas, mas enfrenta resistência

As propostas do PT incluem regras para remuneração, condições de trabalho, benefícios previdenciários e funcionamento dos algoritmos das plataformas. A resistência das empresas, porém, impediu a maior parte desses esforços até agora. Milhões de trabalhadores de aplicativos, em sua maioria homens jovens, também parecem céticos em relação à intervenção governamental.

Lula tentou regulamentar o trabalho por aplicativos em 2024, mas a iniciativa perdeu força diante da resistência de grandes empresas de tecnologia e do aumento da desconfiança dos trabalhadores. O governo voltou a tentar neste ano, mas ainda não houve acordo com o Congresso.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal rival de Lula pela Presidência no material, está pronto para disputar esse grupo eleitoral.

Na plataforma de governo divulgada nesta semana, o PT afirmou: “Queremos estabelecer um sistema para proteger os trabalhadores da economia digital e das plataformas, que regule adequadamente a atividade empresarial e defina as regras para a relação de trabalho, remuneração, condições de trabalho, proteções e direitos trabalhistas e previdenciários, além da transparência algorítmica”.

Trabalhadores querem autonomia, mas também direitos

Oswaldo Amaral, do Centro de Estudos de Opinião Pública da Universidade de Campinas, relaciona o surgimento desse grupo a mudanças econômicas mais amplas. Para ele, o aumento do desemprego durante a recessão de 2015-2016 levou muitos trabalhadores a empregos informais e, depois, às plataformas digitais.

Amaral afirma que a economia de plataforma criou um novo tipo de trabalhador autônomo que muitas vezes se considera seu próprio empresário. Essa percepção, segundo ele, leva parte desse grupo a defender que não precisa do governo e que a intervenção estatal atrapalha. O pesquisador diz ainda que essa visão acaba aproximando esses trabalhadores da direita, tradicionalmente associada à defesa de um Estado menor.

Uma pesquisa encomendada pela Uber e pelo iFood ao instituto Datafolha em 2023 mostrou que 40% dos motoristas se classificavam como de direita, 40% como de centro e 20% como de esquerda.

Outro levantamento, encomendado pelo PT e realizado pelo instituto Vox Populi em junho do ano passado, apontou uma combinação de independência e demanda por proteção entre os trabalhadores de plataformas:

  • 65% disseram que gostariam de se tornar empreendedores;
  • 27,5% afirmaram preferir um emprego formal;
  • 56% consideraram “muito importante” ter direitos trabalhistas.

Entre as medidas apontadas como mais importantes para melhorar as condições de trabalho estavam o adicional de periculosidade, adicionais por doença e acidente e um piso salarial mínimo.

Rogério do Santo, de 43 anos, procura novamente um emprego formal depois de sete anos dirigindo para a Uber. Ele afirma que as tarifas baixas reduziram seus ganhos e que a falta de representação organizada deixa os motoristas com pouca capacidade de pressionar por melhores condições.

“Não temos ninguém do nosso setor para nos representar e buscar melhorias ou benefícios em nosso nome”, afirmou.

Sindicalização também recuou no Brasil

A taxa de sindicalização no Brasil caiu praticamente pela metade na última década: passou de 15,7% em 2014 para 8,9% em 2024, conforme os dados oficiais mais recentes mencionados no material.

A pesquisa encomendada pelo PT mostrou ambivalência em relação à organização coletiva. Quase 40% dos entrevistados disseram que ter seu próprio sindicato seria benéfico, mas uma proporção igual afirmou que não se filiaria a um.

O presidente do PT, Edinho Silva, considera que sindicatos e organizações políticas continuam desconectados dos trabalhadores de plataformas porque ainda operam com base na lógica do emprego formal. “O movimento sindical e as organizações de esquerda não estão conseguindo abordar as condições de trabalho desses trabalhadores. Não estão dialogando com eles, não estão organizando-os e não estão presentes em seu dia a dia”, disse.

Edinho Silva afirmou que cooperativas poderiam ser um caminho para organizar o setor. Para Marco Teixeira, professor de ciências políticas da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, os trabalhadores de aplicativos não se encaixam no modelo tradicional porque “não são nem empregados nem empregadores”. Segundo ele, o PT ainda não tinha uma mensagem adaptada a esse grupo e agora busca compreender “essa nova face do capitalismo”.

A adaptação ao avanço das plataformas digitais se tornou central para a estratégia do PT, que tenta reconstruir sua relação com uma classe trabalhadora cada vez mais distante das linhas de montagem e dos sindicatos tradicionais.

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