
A Orlen, estatal de petróleo da Polônia, ainda tenta recuperar em 2026 os US$ 230 milhões antecipados à Hannon International em uma operação para comprar petróleo venezuelano que envolveu pagamentos em criptomoedas. Em reportagem publicada na segunda-feira, 14 de setembro, o Financial Times (FT) apresentou novos detalhes do negócio realizado entre o fim de 2023 e março de 2024 e informou que parte dos recursos acabou nas mãos de golpistas.
As perdas começaram antes das entregas de criptomoedas aos intermediários: duas conversões de dinheiro para USDT deixaram uma diferença inicial de US$ 80 milhões. O petróleo contratado não foi recebido, e a estimativa do governo polonês para o prejuízo total, incluindo transporte, despesas jurídicas e outros gastos, chega a aproximadamente US$ 424 milhões.
O caso já havia sido noticiado pela Reuters, que informou perdas de 1,6 bilhão de zlotys, então apresentadas como US$ 397 milhões, após o pagamento antecipado sem recebimento do produto. A estimativa do governo também registra 1,6 bilhão de zlotys, mas apresenta equivalência de cerca de US$ 424 milhões. Os dois valores em dólares aparecem associados ao mesmo montante em moeda polonesa, sem explicação para a diferença.
A negociação passou pela Orlen Trading Switzerland (OTS), subsidiária suíça da estatal. Samer Awad, nomeado presidente-executivo da OTS em agosto de 2022, encontrou um operador de 25 anos durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 de Abu Dhabi, no fim de novembro de 2023. Segundo o FT, o jovem seria Kam Ho “Alex” Tse, fundador da Hannon, a quem Awad pediu que conseguisse petróleo venezuelano.
Em 29 de novembro de 2023, a OTS assinou com a Hannon um contrato de US$ 345 milhões para comprar 6 milhões de barris de petróleo Merey 16 da PDVSA, estatal venezuelana. Até 4 de dezembro, a subsidiária havia antecipado US$ 230 milhões, equivalentes a dois terços do valor contratado.
A Hannon contratou a Lexcor Energy, de Vitonicola Mariano, para lidar com a transação. A escolha das criptomoedas teria relação com as sanções dos Estados Unidos contra a Venezuela. Em outubro de 2023, os americanos haviam flexibilizado temporariamente as restrições ao petróleo venezuelano.
De acordo com pessoas ouvidas pelo FT, a expectativa da OTS era obter lucro de aproximadamente US$ 25 milhões a US$ 30 milhões com a operação.
Das três tentativas de converter dinheiro em criptomoedas, apenas uma, de US$ 80 milhões, ocorreu sem problemas. As outras duas envolveram empresas contratadas para transformar os recursos em USDT, a criptomoeda utilizada nos pagamentos:
Mais tarde, em fevereiro de 2024, Mariano e a Lexcor devolveram aproximadamente US$ 21 milhões em USDT vinculados aos US$ 30 milhões encaminhados à Gold Mar.
A assinatura do contrato entre a Orlen e a PDVSA sofreu semanas de atraso, com gastos de milhões de dólares em navios petroleiros parados. Nesse período, Tse viajou à Venezuela com um colega para entregar carteiras físicas que davam acesso a US$ 165 milhões em USDT.
Tse teria encontrado José Castillo, corretor que dizia representar a Synergy, empresa que supostamente teria acesso à PDVSA. Investigações do ano anterior já apontavam um amplo esquema de corrupção na petroleira venezuelana envolvendo corretores. Apesar dos alertas, o colega de Tse entregou a Castillo uma carteira com US$ 60 milhões em USDT.
A entrega ocorreu em Caracas, em 5 de janeiro de 2024, por meio de um pen drive que permitia acesso às criptomoedas. Em 28 de janeiro, Castillo recebeu outro dispositivo, com US$ 50 milhões em USDT, embora o petróleo ainda não tivesse sido entregue. O relato atribui esse segundo pagamento a Tse, enquanto a cronologia da operação identifica o responsável apenas como um representante da Hannon.
Naquele estágio, as perdas relatadas somavam US$ 190 milhões: US$ 80 milhões nas conversões e US$ 110 milhões nos pagamentos a Castillo. A devolução parcial feita pela Lexcor ocorreu posteriormente.
Em 26 de janeiro de 2024, a OTS tentou substituir parte da compra original por 1 milhão de barris de óleo combustível venezuelano. Era um produto diferente do petróleo inicialmente contratado.
Outro corretor passou a participar das tratativas: Juan Rodríguez, que se apresentava como representante da Consulting Services. Para viabilizar a operação, Tse entregou a ele acesso a US$ 11 milhões em USDT, em Caracas, em 25 de fevereiro.
Dois dias depois, em 27 de fevereiro, uma nova administração assumiu a OTS, e Samer Awad deixou a empresa.
Em 8 de março, um navio fretado pela Orlen carregou no terminal de José cerca de 500 mil barris de óleo combustível, avaliados em US$ 28,8 milhões. A quantidade correspondia a apenas metade da carga contratada. Na mesma data, o colega de Tse entregou a Rodríguez outro pen drive com acesso a US$ 11 milhões em USDT.
Em 20 de março, a Hannon perdeu contato com Rodríguez. A segunda metade do óleo combustível não foi entregue, e a operação tampouco resultou no recebimento dos barris de petróleo previstos originalmente.
A OTS rescindiu o contrato original com a Hannon em 28 de março de 2024, deixando US$ 230 milhões em disputa. Em uma avaliação interna de 4 de abril, a subsidiária considerou recuperar 10% dos recursos da Hannon, com probabilidade de 50%. Tratava-se de uma avaliação de recuperação, não de dinheiro efetivamente devolvido.
Em 15 de abril de 2024, um navio anteriormente fretado pela Orlen conseguiu carregar petróleo pesado no terminal de José, mas para a Reliance Industries. Em 17 de abril, os Estados Unidos ampliaram em mais 45 dias o prazo para concluir negócios com petróleo venezuelano.
Awad foi detido nos Emirados Árabes Unidos em janeiro de 2025, após um alerta da Interpol. Posteriormente, a Justiça dos Emirados rejeitou sua extradição para a Polônia, e ele foi libertado.
Em 2026, a Orlen continua buscando a recuperação dos US$ 230 milhões pagos à Hannon. Esse valor corresponde ao adiantamento em disputa; a estimativa mais ampla de aproximadamente US$ 424 milhões inclui também transporte, custos jurídicos e outras despesas atribuídas à operação.
Em nota publicada em seu site, o governo polonês afirmou que tanto a transação quanto a aquisição das criptomoedas com os recursos transferidos pela empresa foram e continuam sendo investigadas. Um comunicado sobre a compra de petróleo venezuelano pela Orlen Trading Switzerland GmbH também foi divulgado pela Procuradoria Regional de Varsóvia em 15 de setembro de 2026.
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