Nas primeiras horas de 18 de abril de 2026, o Akti A – petroleiro de bandeira grega carregado com 300 mil barris de diesel para a trading Vitol – conseguiu vencer o Estreito de Hormuz. Instantes depois, lanchas armadas da Guarda Revolucionária Islâmica surgiram na passagem, mas a embarcação já seguia rumo ao Cabo da Boa Esperança.
O escape do Akti A ilustra o esforço de grandes tradings de petróleo e gás para retirar navios presos no Golfo Pérsico desde o início da guerra, há oito semanas. Além do risco de ataques iranianos, as empresas enfrentam altos custos adicionais de seguro, permanência nos portos e manutenção das embarcações.
A travessia de Hormuz leva até oito horas e as condições diplomáticas mudam rapidamente. Em 17 de abril, Teerã declarou o estreito “completamente aberto” após anúncio de cessar-fogo entre Israel e Líbano. Armadores mobilizaram comboios, mesmo diante de alertas sobre minas na via marítima. Na manhã seguinte, porém, militares iranianos avisaram que apenas navios autorizados pela Guarda Revolucionária teriam passagem segura.
Peter Weernink, presidente-executivo da suíça Swiss Marine, orientou um de seus navios a partir no dia 17. Quando o proprietário chinês da embarcação consultou Pequim na manhã seguinte, a situação já havia mudado e a travessia foi cancelada. Algumas unidades da francesa CMA CGM também tentaram cruzar, mas recuaram após uma delas ser atingida por projétil.
O último petroleiro a sair em segurança na madrugada de 18 de abril transportava petróleo bruto para a estatal azeri Socar, carga que, segundo um trader, rendeu lucro elevado.
A diplomacia paralela tornou-se estratégia. Teerã demonstrou maior tolerância a embarcações ligadas a países próximos, como Paquistão e China, levando operadores a cogitar pagamento de pedágios em criptomoedas. Omã, que compartilha fronteira marítima com o Irã, conseguiu liberar navios por uma rota junto à sua costa.
A Trafigura, com dez petroleiros retidos no início do conflito, removeu o Dhalkut – de bandeira omanense – em 2 de abril, dentro de um comboio de três navios ligados a Omã. A Mercuria, que tinha três embarcações encalhadas, informou que todas já deixaram o golfo, sem detalhar o procedimento. “Há mais navios passando por Hormuz do que se imagina”, afirmou o diretor-executivo Marco Dunand.
Imagem: redir.folha.com.br
Em 22 de abril, drones e mísseis iranianos atingiram três porta-contêineres. Teerã declarou ter apreendido dois deles – Francesca e Epaminondas – e os levado para águas iranianas, em aparente represália ao bloqueio norte-americano de navios ligados ao Irã. Caso confirmada, foi a primeira apreensão desde o início da guerra.
Empresas mais expostas, como o Grupo MSC – que mantém parcerias com Israel –, tentaram cruzar o estreito com os transponders desligados. Dados de rastreamento indicam que seis navios da MSC passaram “no escuro” no fim de semana. A companhia não comentou.
Navios de passageiros também buscam saída. No sábado (18), um cruzeiro da MSC Cruises e dois da Tui atravessaram a rota próxima à costa de Omã. A Tui afirmou não ter pago qualquer valor ao Irã e ter obtido as aprovações necessárias.
Trafigura, Mercuria e Vitol negam pagamentos, para não violar sanções dos Estados Unidos. Larry Johnson, chefe global de frete da Mercuria, criticou a falta de apoio governamental: “Não há esforço coordenado para garantir a passagem comercial por Hormuz. Empresas puramente mercantis não dispõem de mecanismo para navegar”.
Enquanto governos discutem soluções, armadores seguem contando com brechas diplomáticas, comboios improvisados e rotas alternativas para manter o fluxo de petróleo e mercadorias pelo ponto que concentra cerca de um quinto do comércio marítimo global de energia.