Polarização política ameaça legado de estabilidade econômica construído desde o Plano Real, aponta Marcos Lisboa

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro2 minutos atrás9 Visualizações

O economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica e ex-presidente do Insper, revisitou nesta semana o período que vai do Plano Real ao primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva para mostrar como o diálogo político foi decisivo para a consolidação de pilares econômicos ainda hoje fundamentais. Segundo ele, a atual polarização coloca em xeque avanços que garantiram previsibilidade a inflação, juros e câmbio — variáveis sensíveis para qualquer investidor.

Plano Real e social-democracia: quando a conversa importava

Lançado em 1994, o Plano Real só ganhou musculatura com a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A regra limitou despesas de União, Estados e municípios e passou a balizar decisões sobre gastos públicos. Para o mercado, isso significou menor risco de explosão da dívida e, por consequência, menor pressão sobre a Selic.

Primeiro governo Lula preservou a disciplina

Lisboa lembra que, já em 2003, parte da equipe econômica petista manteve a estratégia de austeridade. Dois símbolos desse período foram:

  • Autonomia operacional do Banco Central – embora ainda não fosse lei, a prática de permitir ao BC agir contra a inflação reforçou a credibilidade da política monetária;
  • Bolsa Família e crédito consignado – programas sociais que ampliaram consumo sem romper o arcabouço fiscal.

O resultado foi queda gradual da inflação e dos prêmios de risco, contexto que favoreceu a queda dos juros de longo prazo e a expansão de investimentos produtivos.

Centrão e desgaste institucional elevam o custo do capital

No final do segundo mandato de Lula e, posteriormente, durante os governos Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro, o Palácio do Planalto aprofundou alianças de conveniência com o chamado centrão. Lisboa aponta que o toma‐lá‐dá‐cá com partidos fisiológicos elevou pressões sobre o Orçamento, reduziu a transparência em estatais e alimentou a desconfiança em relação ao controle dos gastos.

Para o investidor, a consequência prática surge na forma de:

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

  • Juros futuros mais altos – remuneração exigida pelos detentores de títulos públicos sobe quando a disciplina fiscal é questionada;
  • Maior volatilidade do dólar – incertezas políticas costumam ampliar a busca por proteção cambial;
  • Oscilações na Bolsa – empresas dependentes de crédito doméstico ou de concessões públicas tendem a sentir mais.

Polarização extrema: impacto direto sobre inflação e Selic

A escalada de confrontos ideológicos descrita por Lisboa gera ruído no relacionamento entre Executivo, Congresso e Banco Central. Caso essa disputa afete a aprovação de medidas de ajuste ou a independência da autoridade monetária, a Selic pode permanecer elevada por mais tempo para ancorar expectativas de inflação. Esse custo extra recai sobre crédito, consumo e lucros corporativos.

Lição para quem está começando a investir

Embora o investidor pessoa física não possa influenciar o rumo da política, entender a ligação entre estabilidade institucional e desempenho dos ativos ajuda a tomar decisões mais conscientes. Três pontos se destacam:

  • Fiscal em foco – desequilíbrios nas contas públicas costumam se refletir rapidamente em títulos do Tesouro Direto, principalmente nos papéis indexados ao IPCA;
  • Independência do BC – quanto maior a confiança na atuação técnica da autoridade monetária, menor a probabilidade de choques inflacionários que corroam retornos reais;
  • Diversificação – cenários de polarização aumentam a importância de combinar renda fixa, renda variável e, quando faz sentido, ativos atrelados ao dólar.

A análise de Marcos Lisboa reforça a ideia de que previsibilidade institucional continua sendo um dos maiores aliados de quem investe, independentemente do grau de experiência.

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