A expectativa de um entendimento entre Estados Unidos e Irã, depois de dois meses de conflito, começa a redesenhar o cenário para quem investe em commodities, ações e renda fixa no Brasil.
Desde o início das hostilidades até a última segunda-feira (4), o barril do Brent avançou 57,9%, o índice Nasdaq ganhou pouco mais de 10% e o dólar recuou 3,7%. No mesmo período, o Ibovespa cedeu 1,69%, após ter acompanhado parte da alta do petróleo antes de devolver os ganhos, mostram dados da consultoria Elos Ayta.
Analistas ouvidos apontam que a queda do petróleo deve ser o reflexo mais imediato de um cessar-fogo. Para Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, a correção já começou e tende a pressionar os papéis de petroleiras, com destaque para Petrobras (PETR4), que liderou os ganhos na Bolsa durante o conflito.
Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos, reforça que o prêmio de risco incorporado ao preço do barril diminuiria com o recuo das tensões, embora o processo possa ser marcado por volatilidade e eventual migração de recursos para mercados emergentes.
Na visão de Dalton Gardimam, economista-chefe da Ágora Investimentos, os efeitos da guerra não somem de imediato. A necessidade de estoques maiores deve manter o Brent acima de US$ 80 “por um longo período”, o que também afetaria fertilizantes, alumínio e demais insumos que transitam pelo Estreito de Ormuz.
Se a pressão do petróleo sobre a inflação arrefecer, varejo, construção civil e fundos imobiliários tendem a se beneficiar com a retomada das apostas de corte na Selic, avalia Souza. Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, lembra que companhias altamente alavancadas também ganhariam alívio.
Mesmo com fluxo estrangeiro menor, Gardimam enxerga oportunidades: o múltiplo preço/lucro do mercado brasileiro está em torno de 11 vezes, abaixo da média histórica de 12, oferecendo retornos estimados de 8% ao ano, acima da taxa real das NTN-B.
Imagem: infomoney.com.br
Para Gardimam, o câmbio tende a se estabilizar próximo de R$ 4,70, sustentado pelos juros elevados no Brasil. Já Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, trabalha com intervalo entre R$ 4,95 e R$ 5,00, citando a combinação de menor risco geopolítico — favorável ao real — e provável redução das receitas de exportação de energia, que limita a valorização da moeda brasileira.
Sousa aposta em dólar mais fraco caso o conflito termine, mas ressalta que fatores domésticos continuam determinantes para o tamanho do ajuste.
Especialistas concordam que a trajetória dos títulos públicos está ligada à queda dos juros. Gardimam projeta a taxa básica em 13,5% até o fim de 2024, enquanto Sung prevê fechamento gradual das curvas mais longas, exigindo paciência de quem carrega Tesouro IPCA+.
Com vários ativos se ajustando quase simultaneamente, analistas recomendam evitar mudanças drásticas de alocação. “Grande parte da reprecificação costuma ocorrer rapidamente”, observa Souza. A orientação é manter uma carteira equilibrada entre renda fixa, ações e investimentos no exterior, fazendo apenas ajustes pontuais para não comprar ativos já encarecidos após a confirmação das notícias, completa Siqueira.
Por ora, o mercado aguarda sinais concretos de um acordo. “Só com a confirmação efetiva do fim do conflito será possível traçar cenários mais claros”, conclui Sung.