Renda do interior pode ficar até 10,8% menor sem valorização de benefícios, aponta estudo

Trader Iniciante - RedaçãoTrader Iniciante - RedaçãoMercado Financeiro12 horas atrás8 Visualizações

A estagnação ou a redução dos benefícios sociais e previdenciários poderá provocar uma retração severa na economia de municípios do interior brasileiro. Um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), projeta que, sem os reajustes, a renda total dessas localidades ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do nível estimado com a valorização real dos pagamentos.

Divulgado na semana de 17 de outubro de 2026, o estudo mostra que aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) representam uma parcela significativa dos recursos que sustentam as famílias e movimentam o comércio nessas cidades. Entre os mais pobres, esses pagamentos chegam a corresponder a quase metade do orçamento familiar.

O levantamento também apresenta uma simulação sobre pobreza: caso os benefícios não tivessem registrado ganhos reais entre 2022 e 2025, aproximadamente 2,7 milhões de pessoas teriam sido empurradas para a pobreza nos municípios fora das regiões metropolitanas. Desse total, 2,4 milhões teriam passado à extrema pobreza. Os números descrevem um cenário simulado, não um aumento efetivamente registrado.

Como os benefícios movimentam a economia local

Segundo a economista Luiza Nassif, codiretora do Made, os recursos recebidos pelas famílias são destinados quase integralmente à compra de itens de primeira necessidade. Com isso, entram rapidamente no comércio local, sustentam empregos e mantêm a arrecadação municipal. O centro de pesquisa integra a Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA-USP).

Essa participação é especialmente relevante fora das grandes concentrações urbanas. Dos 5.569 municípios brasileiros considerados no levantamento, cerca de 4 mil ficam fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades, o peso das transferências públicas pode chegar ao dobro do observado nos grandes centros.

O Ceará ilustra a diferença: os benefícios sociais e previdenciários correspondem a 22% da renda agregada — a soma da renda — da capital e de sua região metropolitana. Nos municípios do interior do estado, a participação alcança 40%.

Na avaliação de Nassif, uma redução desses recursos desencadearia efeitos sobre outras atividades econômicas e atingiria também famílias que não recebem benefícios públicos.

O que foi comparado e onde as perdas seriam maiores

Para projetar os efeitos da evolução da renda dos benefícios nos três anos seguintes, o estudo utilizou como referência o período de 2022 a 2025, quando houve crescimento real, acima da inflação, para o BPC e as aposentadorias. Esse cenário foi comparado ao contexto de reajustes de 2019 a 2022, sem ganhos reais do salário mínimo e com congelamento total.

Renda do interior pode ficar até 10,8% menor sem valorização de benefícios, aponta estudo - imagem 3
Foto: Foto: reprodução

Na comparação, a ausência dos reajustes deixaria a renda agregada do interior do país entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar com valorização real dos benefícios. As projeções variam conforme o estado, com os cenários mais críticos no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí.

Sem a manutenção do ritmo de aumento dos benefícios sociais, as perdas estimadas para a renda total dos municípios do interior seriam:

  • Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí: entre 17% e 18%.
  • Amazonas, Sergipe e Pernambuco: cerca de 15%.
  • Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia: entre 10% e 13%.
  • Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina: até 6,5%.

Simulações apontam efeito sobre a pobreza

Além de sustentar a atividade econômica, os benefícios têm papel decisivo no combate à pobreza, destaca o levantamento. Segundo Nassif, eles podem representar até 50% do rendimento de famílias com renda de até 1,5 salário mínimo por pessoa. Para a economista, reajustes inferiores à inflação podem levar à pobreza famílias que já vivem no limite de sua renda.

Na simulação que retirou os ganhos reais dos benefícios entre 2022 e 2025, os maiores aumentos absolutos da pobreza fora das regiões metropolitanas ocorreriam na Bahia, com até 336 mil pessoas a mais; em São Paulo, com até 263 mil; e em Minas Gerais, com até 251 mil. Na sequência aparecem Maranhão, Pará e Ceará, cada um com mais de 200 mil pessoas adicionais nessa condição.

Nassif avalia que esses resultados evidenciam os danos que uma limitação ao crescimento dos benefícios poderia causar às economias locais. Para ela, preservar a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda constitui uma garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio do interior brasileiro.

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