Rendimento dos Treasuries encosta em 5% e comprime diferença com Tesouro Direto

Felipe MartinsFelipe MartinsEstratégias de investimento7 horas atrás9 Visualizações

Os rendimentos dos títulos de dívida dos Estados Unidos voltaram aos níveis mais altos desde a crise de 2007. Na terça-feira (19), o Treasury de 10 anos tocou 4,7% ao ano, enquanto o de 30 anos chegou a 5,2%. Para o investidor brasileiro, o dado chama atenção porque a diferença – o chamado spread – entre esses papéis e os títulos públicos locais, que já superou 11 pontos percentuais em 2023, encolheu de forma visível.

Por que o spread ficou menor?

No início do ano, a Selic em dois dígitos mantinha a renda fixa brasileira isolada no topo das taxas globais. Já os Treasuries rondavam 4%. A sucessão de dados fortes de emprego e inflação nos EUA elevou a perspectiva de juros altos por mais tempo, pressionando os preços dos títulos e, por consequência, puxando seus rendimentos para cima.

Quando a taxa sobe em Washington e fica mais próxima da brasileira, o diferencial se estreita. Isso não significa que o Tesouro Direto deixou de pagar bem; indica apenas que o prêmio de risco brasileiro encolheu.

Prefixados x papéis atrelados à inflação

  • Prefixados: o comparativo de 14% ao ano do Tesouro prefixado contra 4,7% do Treasury de 10 anos pode parecer gritante, mas ignora o efeito da inflação doméstica, historicamente mais alta.
  • Indexados à inflação: na linha Tesouro IPCA+ (Brasil) versus TIPS (EUA), o spread é inferior a 2 pontos percentuais, segundo gestores. Ainda assim, a inflação norte-americana tende a ser mais baixa e previsível, o que melhora o retorno real lá fora.

Câmbio: a variável que muda tudo

Para o aplicador que pensa em reais, o retorno dos Treasuries oscila conforme o dólar. Se a moeda americana cai, o ganho pode evaporar – fato que ocorreu nos últimos 12 meses, quando o real se valorizou cerca de 11%. No entanto, quem mira o longo prazo costuma aceitar essa volatilidade apostando na tendência de desvalorização estrutural do real diante de choques externos.

Riscos não faltam – mas são diferentes

Economistas lembram que a dívida dos EUA já supera o próprio PIB e sofreu rebaixamento de rating. O risco, porém, é descrito como gradual: uma possível perda de credibilidade ao longo de anos. No Brasil, o temor recai sobre eventuais rupturas fiscais mais bruscas, que exigem juros altos para rolar a dívida pública.

Como o investidor pode acessar Treasuries

  • ETFs: listados na B3 ou em corretoras internacionais, oferecem cesta diversificada com baixo custo, mas expõem o cotista à marcação a mercado contínua.
  • Compra direta de títulos: dá previsibilidade de fluxo de cupons e valor de resgate, eliminando o “barulho” diário caso o ativo seja carregado até o vencimento.
  • Mutual funds: fundos domiciliarizados nos EUA que reinvestem cupons podem adiar o pagamento de impostos, aproveitando juros compostos.

Onde cada peça se encaixa na carteira

Especialistas concordam que Treasuries e Tesouro Direto não são concorrentes, mas complementares. Títulos norte-americanos ajudam na proteção contra crises globais e diversificam o risco de país; já os papéis do Tesouro Nacional combinam melhor com obrigações futuras em reais e oferecem retorno real elevado quando a inflação se mantém controlada.

Em um cenário de juros ainda restritivos tanto aqui quanto lá fora, equilibrar a exposição entre as duas geografias reduz a dependência de um único governo, de uma única moeda e de um único ciclo econômico. Para o investidor iniciante, a principal lição é compreender que rendimento nominal não conta toda a história: inflação, câmbio e horizonte de tempo mudam – e muito – a fotografia final.

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