São Paulo – O ex-presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, afirmou que as stablecoins têm papel decisivo na transição para um sistema financeiro baseado na tokenização de ativos, processo que considera já em curso em todo o mundo.
Segundo Campos Neto, 99% das stablecoins existentes estão lastreadas no dólar, característica que lhes garante maior previsibilidade em comparação a outros criptoativos sem lastro. No Brasil, essas moedas digitais respondem por cerca de 90% do volume negociado em cripto, aponta o economista.
Em países latino-americanos, o uso de criptoativos – com predomínio das stablecoins – acumulou altas próximas de 300% em períodos recentes. Ele observa que a demanda tende a crescer quanto menor a conversibilidade da moeda local, maior sua volatilidade e mais elevado o risco de controles de capitais.
Evidências citadas pelo economista mostram que o giro das stablecoins é inferior ao de meios tradicionais de pagamento, sinalizando que muitos usuários as mantêm como reserva de valor em dólar digital, alternativa considerada mais simples e barata do que manter contas em moeda forte fora do país.
Campos Neto aponta a rápida multiplicação de carteiras que integram o mundo cripto ao sistema bancário tradicional. Entre os principais casos de uso, ele menciona:
O economista destaca dois riscos associados à difusão das stablecoins:
Imagem: redir.folha.com.br
Para enfrentar esses desafios, Campos Neto defende a criação de instrumentos que permitam conceder crédito em moedas programáveis, modelo conhecido como tokenized deposits. Ele lembra que o desenho do Drex, projeto do Banco Central lançado em 2022, já foi estruturado para viabilizar essa modalidade.
O ex-chefe da autoridade monetária também sugere avanços na segregação de contas e colaterais. Na prática, o comprador de stablecoins deveria conseguir verificar, em registros separados, tanto o saldo das moedas digitais em seu nome quanto o valor dos ativos que as lastreiam, aumentando transparência e confiança.
Campos Neto avalia que a combinação de inteligência artificial, open finance e tokenização vai acelerar mudanças no setor bancário, exigindo reguladores mais preparados tecnologicamente. Para ele, o dinheiro tende a tornar-se cada vez mais programável, obrigando a política monetária a se adaptar a um fluxo financeiro mais rápido e baseado em blockchain.
“Bem-vindos ao novo mundo da tokenização”, conclui o economista, mestre em economia pela UCLA e atualmente vice-chairman do Nubank.