Londres – O estreito de Hormuz, por onde costumava passar 20% da produção mundial de petróleo e gás, opera quase vazio desde 28 de fevereiro, data em que Estados Unidos e Israel iniciaram bombardeios contra o Irã. Em resposta, Teerã atacou aliados de Washington na região e restringiu o acesso à rota, provocando um bloqueio inédito.
Entre 1º de março e 21 de março de 2026, a agência britânica de segurança marítima UKMTO registrou 24 ataques ou notificações de risco envolvendo navios comerciais no golfo Pérsico, no estreito de Hormuz e no golfo de Omã. Desse total, 11 eram petroleiros. Outros quatro ataques foram reivindicados pela Guarda Revolucionária iraniana, mas não obtiveram confirmação internacional.
Dados da Organização Marítima Internacional (OMI) apontam pelo menos oito marinheiros ou trabalhadores portuários mortos desde o início do conflito. Quatro pessoas continuam desaparecidas e outras dez ficaram feridas.
O canal normalmente recebe cerca de 120 travessias diárias, segundo o portal Lloyd’s List. Entre 1º e 21 de março, houve apenas 124 passagens de navios cargueiros, informa a consultoria Kpler, redução de 95%. Desses deslocamentos, 75 foram de petroleiros ou gaseiros, a maioria navegando para o leste, saindo do estreito.
Relatório do JPMorgan divulgado em 16 de março calcula que a maior parte do petróleo que atravessa o estreito seja destinada à Ásia, principalmente à China. O editor da Lloyd’s List para Ásia-Pacífico, Cichen Shen, disse haver indícios de que autoridades chinesas elaboram “algum tipo de plano de saída” para seus grandes petroleiros retidos na área.
Segundo o JPMorgan, 98% do fluxo atual de petróleo na região é iraniano, com média de 1,3 milhão de barris diários no início de março. Em tempos de paz, um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumido no planeta passa por Hormuz.
A OMI estima que cerca de 20 mil tripulantes estejam impactados pelo bloqueio. A contagem não inclui passageiros de cruzeiros, trabalhadores portuários e pessoal de instalações em alto-mar. Ao todo, ao menos 3.200 embarcações permanecem na zona, dois terços delas navios comerciais de grande porte, de acordo com a organização.
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A consultoria Clarksons informou em 18 de março que 250 petroleiros continuam no golfo, equivalente a 5% da tonelagem mundial de navios-tanque de petróleo bruto.
Dados do serviço Ship and Bunker mostram que o preço do combustível marítimo aumentou 90% desde o início da guerra. A Clarksons acrescenta que o frete para transportar um barril de petróleo bruto dobrou para US$ 10 desde janeiro, nível não visto desde 2022, ano da invasão russa à Ucrânia.
Análise da AFP baseada em registros de trânsito revela que 51 embarcações — pouco mais de 40% do total que ainda circula pelo estreito — estão sujeitas a sanções impostas por Estados Unidos, União Europeia ou Reino Unido. Entre petroleiros e gaseiros, o índice sobe para 56%.
Com o conflito sem perspectiva de término, o fluxo de navios pelo estreito de Hormuz segue drasticamente reduzido, enquanto custos e riscos permanecem elevados para armadores e tripulações.