A ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã voltou a desorganizar o mercado de energia e ameaça elevar a inflação média dos países ricos dos atuais 2% para uma faixa entre 5% e 6%, segundo projeções de economistas e de consultorias.
Impacto imediato nos preços
O fluxo de petróleo pelo estreito de Hormuz opera cerca de 97% abaixo do normal. O Brent, referência internacional, gira em torno de US$ 100 o barril, ante US$ 60 no início do ano, após o Irã bombardear usinas de gás natural. Nos Estados Unidos, a gasolina também ficou mais cara.
Estudo da Oxford Economics indica que dois meses com o petróleo a US$ 140, somados a gás natural mais caro, empurrariam partes da economia mundial para uma leve recessão. Pesquisa do Wall Street Journal aponta US$ 138 como preço de ruptura para os EUA. Ainda assim, análises do Deutsche Bank mostram que a variação rápida, e não apenas o nível do preço, é decisiva: em 2026 o avanço ainda não dobrou, longe dos 166% registrados no choque de 1990, quando o WTI teria de alcançar US$ 175 para repetir aquele impacto.
Salários reais sobem ao menos 1% ao ano nas economias avançadas e, no quarto trimestre de 2025, os lucros corporativos globais cresceram 15% em termos nominais. Indicadores de alta frequência sugerem aceleração do PIB nos últimos meses. Índices do Goldman Sachs combinando ações, câmbio e outros ativos mostram investidores precificando apenas uma desaceleração moderada, não uma recessão.
Para cada aumento sustentado de US$ 10 no barril de petróleo, a inflação geral tende a subir de 0,3 a 0,4 ponto percentual. Se a cotação permanecer em torno de US$ 100, a taxa média da OCDE pode superar 4%. Com petróleo a US$ 140, o índice pode alcançar entre 5% e 6%.
Indicadores de expectativa inflacionária no mercado disparam. O índice global da Alternative Macro Signals, considerado bom previsor dos dados oficiais, avançou fortemente; mantido o padrão histórico, a inflação mensal global pode ultrapassar 0,6% até julho, ritmo equivalente a mais de 7% ao ano. A consultoria Truflation registrou salto da inflação de bens nos EUA, de 1% para quase 3,5% no acumulado de 12 meses, impulsionada quase integralmente pela alta do petróleo.
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Empresas demonstraram nos últimos anos capacidade de repassar custos com rapidez, o que pode acelerar o surto de preços. Bancos centrais, por sua vez, enfrentam pressões políticas para não elevar juros. Donald Trump já sinalizou descontentamento caso Kevin Warsh, indicado por ele para comandar o Fed, opte por aperto monetário logo no início do mandato.
Se a inflação corroer o poder de compra, governos tendem a intervir. Entre 2022 e 2023, países europeus gastaram de 3% a 4% do PIB para conter a alta dos custos de energia, aliviando a situação dos mais pobres, mas beneficiando proporcionalmente os consumidores de renda mais alta e ampliando o déficit público. Não há garantia de que novas medidas sejam mais focalizadas, em meio a ambiente de populismo e forte demanda por gastos.
A longo prazo, especialistas alertam que o efeito econômico mais duradouro do conflito no Oriente Médio pode ser o agravamento das fragilidades fiscais das economias desenvolvidas.