Os fundos de crédito privado iniciaram abril com forte saída de recursos. Levantamento da Anbima aponta resgate líquido de R$ 4,6 bilhões entre 1.º e 8 de abril na principal categoria de renda fixa que investe em títulos corporativos de diversos prazos. O patrimônio desse grupo encolheu de R$ 725,2 bilhões para R$ 721,8 bilhões no período.
Especialistas alertam que o volume real pode ser maior, já que muitos desses produtos têm prazos de resgate de 30, 60 ou 90 dias. “É provável que os pedidos tenham começado em março e só apareçam nas estatísticas de abril, maio ou até depois”, observa Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial.
Análises de relatórios diários enviados à CVM mostram que março começou com captação positiva, mas o cenário mudou na terceira semana. Em 20 de março, dia em que a Raízen (RAIZ4) pediu recuperação extrajudicial, ocorreu o primeiro saldo negativo após duas semanas. Três dias depois, o GPA (PCAR3) fez o mesmo movimento. A pressão atingiu o ápice em 27 de março, considerado o pior dia do período.
Nos sete primeiros pregões de abril, quatro registraram saídas, contra cinco em todo o mês de março, que teve 22 dias úteis.
Segundo Siqueira, a deterioração dos índices de crédito privado começou no fim de 2024, quando problemas envolvendo Braskem (BRKM5), CSN (CSNA3) e outros emissores ganharam destaque, ao mesmo tempo em que as taxas dos títulos públicos subiam. Em março, os fundos de crédito entregaram menos que o CDI pelo segundo mês seguido, anotando o pior resultado nominal desde dezembro de 2024. No primeiro trimestre, a rentabilidade ficou em 85% do CDI.
O movimento no mercado primário também contribuiu. Com o grande volume de emissões, bancos coordenadores ficaram com parte relevante dos papéis e passaram a vendê-los no mercado secundário com taxas mais altas, pressionando os preços dos títulos em circulação. Assim, as cotas dos fundos caíram tanto pela abertura dos spreads quanto pelas vendas para honrar resgates.
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A Sparta, que havia reduzido risco antes da piora, já faz compras pontuais e aponta “melhorias de assimetria”. A ARX afirma que momentos como o atual trazem boas oportunidades, embora mantenha postura cautelosa. Já a SulAmérica Investimentos destaca debêntures incentivadas, projetando Selic terminal em 13% ao ano, enquanto a Inter Asset se mostra seletiva, avaliando empresa a empresa dentro de cada setor.
Para Siqueira, novos investidores encontram preços mais atrativos, mas quem já está posicionado pode considerar reduzir exposição, aumentando a fatia em títulos soberanos ou diversificando para fundos imobiliários e renda variável.
Gestoras consultadas descartam necessidade de liquidação forçada de ativos. A ARX não vê sinais de estresse extremo; a Sparta classifica o episódio como “ajuste de percepção”. Contudo, Siqueira ressalta que, com prazos longos de resgate, o pico de saídas pode ainda não ter aparecido nas estatísticas.