LONDRES, 2026 – O comentarista econômico Martin Wolf afirma que a atual combinação de uma economia mundial robusta com um ambiente político confuso pode não se sustentar por muito tempo. Em artigo publicado nesta semana, o chefe de economia do Financial Times questiona até quando será possível conciliar crescimento com episódios de tensão geopolítica e decisões imprevisíveis de governos.
No início da semana passada, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump ameaçou “eliminar” o Irã caso o estreito de Hormuz continuasse fechado. Dois dias depois, Washington e Teerã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas para reabrir a rota, mas o acordo não se concretizou. Com a passagem ainda bloqueada, o vice-presidente americano J.D. Vance tentou negociar em Islamabad e falhou.
Na sequência, Trump declarou na rede Truth Social que a Marinha dos EUA iniciaria o bloqueio de todos os navios que entrassem ou saíssem do estreito. O governo detalhou que a medida cobriria “toda a extensão do litoral iraniano”, atingindo portos, terminais petrolíferos e embarcações “independentemente da bandeira”.
Diante da incerteza, o Fundo Monetário Internacional abandonou o tradicional “cenário base” em suas projeções e passou a divulgar uma “previsão de referência” acompanhada de cenários “adverso” e “severo”.
Segundo o FMI, sem a guerra no Irã as projeções deste ano teriam sido revisadas para cima. O organismo também ressalta que os custos do conflito recaem principalmente sobre países da região, importadores de commodities e economias com fragilidades pré-existentes.
Wolf compara o momento atual ao período de 1914 a 1945, marcado por mudanças abruptas de poder e choques ideológicos. Ele lista possíveis ameaças: tensões geopolíticas, choques de oferta de matérias-primas, barreiras comerciais, frustração com resultados da inteligência artificial, déficits fiscais persistentes, aumento da dívida pública e ataques à credibilidade de bancos centrais.
Imagem: redir.folha.com.br
O articulista acrescenta que o declínio dos Estados Unidos como hegemon “benigno” intensifica a incerteza, ressaltando que a postura beligerante de alguns líderes seria “o golpe de misericórdia” para a ordem internacional criada em 1944.
Apesar dos riscos, o FMI ressalta que, antes da guerra, a economia mundial apresentava desempenho melhor que o esperado. Exportações de tecnologia impulsionadas pela inteligência artificial ajudaram a compensar tarifas impostas pelos EUA, enquanto o comércio global se reorientou rapidamente durante a disputa comercial com a China. Até agora, nota Wolf, o protecionismo norte-americano não foi replicado de forma ampla.
Outro ponto destacado é a recente derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, interpretada como demonstração de que modelos políticos baseados em corrupção e guerras culturais podem ser rejeitados em votações relativamente livres. Para o comentarista, a procura por cooperação e relações pacíficas ainda prevalece, indicando que a sociedade não abandonou por completo as lições contra nacionalismos agressivos.
Wolf conclui que o cenário de conflito entre caos político e resiliência econômica coloca em jogo não apenas a prosperidade, mas também a noção de civilização construída após 1944.