Mesmo com a perspectiva de reabertura do estreito de Hormuz, autoridades do setor energético afirmam que a rota não voltará a oferecer a segurança de antes. A constatação tem levado países do Oriente Médio e grandes importadores de combustíveis a buscar rotas alternativas e fontes de energia que reduzam a dependência da passagem.
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos redirecionaram parte expressiva da produção para portos fora de Hormuz, utilizando oleodutos construídos em crises anteriores. O Iraque, por sua vez, retomou envios limitados de petróleo para a Turquia por um duto sujeito a frequentes paralisações.
Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que mais de 7 milhões de barris de petróleo por dia deixam o golfo Pérsico por esses caminhos, contra menos de 4 milhões antes do início do conflito. Ainda assim, o volume representa apenas uma fração dos 20 milhões de barris que cruzavam diariamente o estreito antes da guerra.
Em 17 de abril, o preço internacional do petróleo recuou 9%, atingindo o menor patamar desde a segunda semana do conflito, depois que o chanceler iraniano anunciou que Hormuz estaria “completamente aberto”. No dia seguinte, o Irã recuou após o então presidente americano, Donald Trump, declarar que manteria o bloqueio a navios ligados a Teerã. Os Estados Unidos chegaram a apreender um cargueiro iraniano, evidenciando a facilidade com que a navegação pode ser interrompida.
Pipelines não atendem países sem saída alternativa ao mar, como Kuwait e Catar, nem substituem o transporte de alumínio, fertilizantes e outras cargas. “O estreito de Hormuz será menos importante em 2030 ou 2035 do que era em janeiro”, projeta Elliott Abrams, ex-enviado especial dos EUA para Irã e Venezuela, ao prever a multiplicação de rotas paralelas.
Entre as propostas está um novo oleoduto iraquiano até o Mediterrâneo, via Síria. Experiências anteriores mostram obstáculos: um duto construído nos anos 1980 entre Iraque e Mar Vermelho foi fechado pela Arábia Saudita em 1990, após a invasão do Kuwait por Saddam Hussein. O resultado mais recente foi a suspensão, no mês passado, de cerca de 3 milhões de barris diários de produção iraquiana.
“Você pode desenhar linhas belíssimas no mapa; tirá-las do papel é outra história”, resume Robin Mills, presidente da consultoria Qamar Energy.
Imagem: redir.folha.com.br
Obras para contornar Hormuz podem custar de bilhões a dezenas de bilhões de dólares, mas executivos argumentam que poucos meses de interrupção já compensam projetos menores. “A partir do momento em que mísseis e drones começaram a cair, ficou claro que não recuaríamos”, diz Badr Jafar, empresário dos Emirados Árabes e enviado especial de negócios e filantropia, ao defender uma cooperação regional inédita.
Importadores aceleram a diversificação: ampliam compras de petróleo dos Estados Unidos, adotam medidas de economia e analisam reativar usinas nucleares. Essas mudanças tendem a favorecer produtores fora de gargalos marítimos e podem acelerar a transição para fontes renováveis, sustentam especialistas.
Spencer Dale, ex-economista-chefe da BP e hoje professor visitante na London School of Economics, vê um cenário de custos crescentes para garantir segurança energética. “O mundo está mais incerto e vulnerável do que antes. A resposta racional é tornar o sistema mais resiliente, mas isso tem um preço”, afirma.
Enquanto alternativas não se consolidam, a reabertura de Hormuz segue imprescindível para boa parte do comércio global de energia, embora já não seja mais vista como garantia de estabilidade.