O agravamento de conflitos geopolíticos e disputas tarifárias vem mudando o mapa mundial da oferta de grãos. Segundo Aurélio Pavinato, presidente da SLC Agrícola (SLCE3), o Brasil converteu incerteza externa em novos contratos de soja e milho, produtos que sofreram fortes quebras de safra na Ucrânia e restrições na disputa EUA-China.
Quando a Ucrânia foi invadida, compradores de milho buscaram origens alternativas; na guerra comercial entre Estados Unidos e China, o fluxo de soja migrou. Agora, com tensão no Oriente Médio, a busca por um parceiro fora das rotas de conflito se repete. A leitura de Pavinato é que o país vem sendo percebido como produtor estável, fator decisivo em um mercado em que atraso de semanas compromete o abastecimento global.
No câmbio, a volatilidade costuma favorecer exportadores: dólar mais forte aumenta a receita em reais. Para o investidor iniciante, isso ajuda a entender por que empresas do agro podem ter desempenho descorrelacionado da economia doméstica tradicional.
Apesar da vantagem competitiva na produção, levar grãos do Cerrado ao porto ainda custa mais do que na Argentina ou nos EUA. A diferença, explica o executivo, corrói margens. A solução passa por investimentos em rodovias, ferrovias e hidrovias — temas que também interessam a quem investe em concessões de infraestrutura ou em FIIs de logística.
A redução desse custo tende a valorizar a terra. Hoje, o hectare no Cerrado sai por US$ 10 mil–15 mil, enquanto áreas equivalentes na América do Norte ultrapassam US$ 30 mil. Para Pavinato, a aproximação desses preços é questão de tempo e de frete mais barato.
No ano passado, a SLC alienou cerca de R$ 1 bilhão em propriedades rurais para fundos e reinvestiu o capital em sistemas de irrigação nas mesmas áreas. Resultado: duas safras por ano e potencial de elevar a produtividade em 220% ao longo do tempo. O modelo — parecido com o sale-leaseback visto no setor imobiliário — libera caixa sem abrir mão da operação agrícola.
Com a previsão de El Niño, fenômeno que costuma provocar secas no Nordeste, a companhia ampliará a área irrigada de 16 mil para 53 mil hectares, com foco na Bahia. A mitigação climática virou ponto sensível para investidores que monitoram riscos ESG e de receita.
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A empresa mantém política de distribuir 50% do lucro líquido desde 2017. Nos últimos cinco anos, o retorno médio ao acionista foi de 5,2% ao ano, índice que garantiu lugar no IDIV, carteira da B3 focada em pagadoras de dividendos. Em ambiente de Selic mais alta, esse percentual pode parecer modesto frente a renda fixa. Porém, com possível ciclo de queda dos juros, fluxos tendem a buscar renda variável de empresas com histórico estável de distribuição.
Importante: dividendos não são garantia futura; dependem de safra, preço das commodities e câmbio. Para o investidor iniciante, avaliar consistência de caixa e endividamento ajuda a dimensionar o risco antes de apostar em estratégias de renda via proventos.
Oito em cada dez líderes da SLC vêm de promoção interna. A companhia oferece programas de estágio, trainee e graduação dentro das fazendas. Em tese, turnover menor preserva conhecimento e reduz custo operacional — variável que impacta diretamente a eficiência e, por extensão, o resultado por ação.
Com cadeias globais ainda desorganizadas, o Brasil permanece no radar de compradores internacionais. Para investidores, observar como empresas como a SLC equilibram produtividade, logística e gestão de risco climático ajuda a entender o verdadeiro potencial — e as limitações — do maior fornecedor emergente de grãos do planeta.
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