Três anos depois de 108 economistas preverem “devastação” para a Argentina, os números mostram um cenário bem diferente. A estratégia de choque fiscal do presidente Javier Milei, iniciada em dezembro de 2023, levou a inflação mensal de 211% para 34% em abril deste ano e impulsionou a entrada recorde de capital estrangeiro.
O que mudou na economia argentina
- Corte de gastos públicos: subsídios foram reduzidos e ministérios extintos, gerando superávit primário.
- Câmbio e dolarização informal: o peso passou a flutuar livremente, aproximando-se do dólar e ampliando a previsibilidade de preços.
- Reabertura ao capital externo: com a credibilidade em alta, o país recebeu US$ 18,8 bilhões em aportes no 4º trimestre de 2025.
- Acordo cambial com os EUA: um swap de US$ 20 bilhões ajudou a estabilizar reservas e sinalizou confiança ao mercado.
- Exportações em alta: de US$ 5 bi para quase US$ 9 bi no mesmo mês, apoiadas pelo avanço de petróleo e gás.
Produção de energia ganha força
A produção de petróleo subiu 32%, para 882,2 mil barris/dia, e a de gás natural avançou 11%, atingindo 48.748 milhões de m³ em 2025. A expansão do setor energético elevou a pauta exportadora e reforçou a entrada de dólares, fator crucial para conter a inflação.
Impacto sobre o investidor brasileiro
- Risco-país menor: com inflação em queda e contas públicas ajustadas, títulos argentinos ganham fôlego nos índices de mercados emergentes, afetando fundos multimercado e de renda fixa que carregam esses papéis.
- Câmbio regional: a estabilidade do peso tende a reduzir volatilidade na fronteira Sul, mas o dólar segue referência para ambos os países.
- Empresas listadas na B3: companhias brasileiras com operações na Argentina podem registrar melhora de resultados se o novo ambiente se consolidar.
- Comparação de políticas: enquanto o Banco Central do Brasil usa a Selic para conter a inflação, Milei optou por restringir emissão de moeda e cortar gastos. A experiência argentina reforça o debate regional sobre disciplina fiscal.
O que disseram os críticos
Antes da eleição de 2023, nomes como Thomas Piketty apontaram “riscos severos” nas propostas de Milei, temendo retração do PIB e perda de espaço de política econômica. Porém, o PIB argentino cresceu 4,4% no ano passado, contrariando as previsões iniciais.
Imagem: Sim Cstable FOXBusiness
Termos que podem confundir
- Choque fiscal: ajuste rápido de receitas e despesas do governo para eliminar déficits.
- Swap cambial: acordo de troca de moedas entre bancos centrais ou tesouros para prover liquidez em divisas fortes.
- Dolarização informal: uso do dólar como referência de valor sem adoção oficial da moeda.
Apesar dos avanços, desafios permanecem, como o nível de pobreza ainda elevado. Para o investidor, o caso argentino serve de lembrete sobre a importância da disciplina fiscal no controle da inflação e na atração de capital.