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Metade da dívida pública que circula no mercado já está ligada diretamente à Selic. Esse número, que era de 41% três anos atrás, mostra como o governo vem trocando papéis longos e prefixados por títulos pós-fixados — as LFTs, conhecidas no Tesouro Direto como Tesouro Selic.
De acordo com dados compilados por grandes bancos, o prazo médio da dívida permanece ao redor de quatro anos principalmente porque as novas LFTs já nascem com vencimentos superiores a seis anos. Em contrapartida, os prefixados (LTN e NTN-F) encurtaram, e as NTN-B (Tesouro IPCA+) deixaram de atrair o mesmo interesse em prazos longos.
Com isso, o chamado risco de repactuação — porcentual da dívida cujo custo pode mudar em até 12 meses por acompanhar a Selic ou vencer nesse período — subiu para cerca de 63%, o maior nível da série histórica. Quanto maior essa exposição, mais sensível a conta de juros fica a qualquer ciclo prolongado de taxa básica alta.
Historicamente, as NTN-B eram compradas por fundos de pensão e planos de previdência, que buscam papéis que protejam contra a inflação durante décadas. Esse público, estimado em quase R$ 3 tri, praticamente parou de crescer após mudanças tributárias nos planos de previdência.
Ao mesmo tempo, investidores estrangeiros focam nos prefixados. Segundo levantamentos de bancos internacionais, esse grupo detém apenas 3% do estoque de NTN-B, mas carrega mais de 40% das NTN-F. Resultado: o Tesouro encontra pouco apetite para novos títulos indexados ao IPCA, justamente os papéis que ajudariam a travar o custo da dívida no longo prazo.
Diante da queda na procura por NTN-B, a saída natural é ampliar a oferta de LFTs. O problema é o prêmio: hoje o papel paga cerca de 0,10 ponto percentual ao ano acima da Selic, praticamente o mesmo que as operações compromissadas de um dia oferecidas pelo Banco Central.
Para atrair compradores, analistas como Ricardo Gallo, sócio de uma consultoria financeira, projetam a necessidade de elevar esse prêmio para algo entre 102% e 103% do CDI. Traduzindo: em vez de receber a Selic “cheia”, o investidor passaria a ganhar 2% ou 3% a mais do que a referência de curtíssimo prazo. Esse adicional compensa a menor liquidez do título — quem precisar vendê-lo antes do vencimento corre risco de conseguir preço pior.
Imagem: Reprodução | Trader Iniciante
Uma remuneração maior tornaria o Tesouro Selic mais competitivo frente a alternativas como CDBs, LCIs e LCAs, muitas vezes isentas de IR para a pessoa física ou com liquidez diária.
O debate sobre a remuneração das LFTs aponta para um ponto central: o ajuste fiscal. Enquanto o crescimento das despesas públicas pressionar a percepção de risco, investidores exigirão prêmios mais altos para financiar a dívida. Isso trava o alongamento dos prazos e amplia a fatia atrelada à taxa curta, criando um ciclo que eleva o custo total.
Gestores lembram que não se trata de questionar a solvência do governo no curto prazo, mas de capacidade de absorção de risco pelo mercado. Sem estímulo adequado, fundos e bancos preferem ficar no dinheiro de curtíssimo prazo ou em títulos privados isentos, deixando o Tesouro sem compradores suficientes para papéis mais longos.
Em última instância, a trajetória da Selic dependerá do equilíbrio entre inflação, atividade e confiança fiscal. Se o prêmio das LFTs subir, investidores pessoas físicas podem ver oportunidades melhores na renda fixa pós-fixada, mas o recado macroeconômico permanece: juros altos se explicam mais pela conta pública do que pela falta de liquidez.
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