Motoristas norte-americanos estão alterando hábitos de consumo para enfrentar o avanço de 28% no preço da gasolina desde o quase fechamento do Estreito de Hormuz pela guerra no Irã. A cotação média nacional chegou a US$ 4 por galão, e os primeiros sinais de redução de demanda já aparecem nos postos.
Dados da empresa de análise Upside, que monitora compras em mais de 23 mil postos, mostram que as vendas médias por estação no Nordeste dos Estados Unidos encolheram 4,3% entre fevereiro e março. No mesmo período de 2025, havia crescimento de 0,6%.
Regiões tradicionalmente mais dependentes do automóvel também registraram recuo. Nas Montanhas Rochosas (Arizona, Colorado e Utah), a queda foi de 0,3%, contra alta de 3% um ano antes. Já no Centro-Sul (Tennessee, Kentucky e Alabama), o avanço desacelerou de 7,2% para 3,6%.
Para economizar, motoristas reduzem o volume abastecido, optam por combustíveis de menor octanagem e recorrem a viagens compartilhadas. As vendas de gasolina premium caíram 7%, e as de categoria intermediária, 3,6%.
O número de transações subiu 10,7% desde o início do conflito, mas o volume total comercializado aumentou apenas 2,2%, indicando abastecimentos menores e mais frequentes.
A assistente social Samantha Lott, que roda diariamente pelo norte do Texas, passou a fazer entregas e a vender plasma para bancar o combustível. “Coloco de US$ 10 a US$ 15 por vez e torço para durar até conseguir mais dinheiro”, afirmou.
Entre fevereiro e março, downloads de aplicativos voltados a poupar combustível dispararam: Gasbuddy (+453%), Mudflap (+95%) e Upside (+81%). O serviço de caronas BlaBlaCar registrou alta de 15% no mesmo intervalo, segundo a Sensor Tower.
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Organizações de assistência social também sentem o impacto. O serviço Wyoming 211 relata aumento de pedidos de transporte gratuito para consultas médicas, informou a diretora Ann Clement.
Analistas veem a alta na bomba como possível risco para o presidente Donald Trump, que prometeu preços de US$ 2 por galão e enfrenta eleições de meio de mandato em novembro. “Quando o valor sobe, os motoristas culpam quem está no poder”, disse Kevin Book, da consultoria ClearView Energy.
Apesar dos ajustes, o consumo de gasolina nos EUA permanece relativamente inelástico. A Administração de Informação de Energia registrou, na semana encerrada em 17 de abril de 2026, saída de 358 mil barris diários a menos das refinarias em relação ao mesmo período de 2025 — redução considerada modesta por especialistas.
Para a BloombergNEF, cada mês de interrupção no Estreito de Hormuz elimina cerca de 2 milhões de barris por dia do mercado global, mas “as pequenas medidas, como dividir caronas, não deslocam grandes volumes”, avaliou David Doherty, chefe de pesquisa de recursos naturais da consultoria.