Consumo nas favelas: Coca-Cola lidera preferência e reforça peso econômico das periferias

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiroagora mesmo6 Visualizações

Uma pesquisa realizada em abril pelo Tracking das Favelas, da empresa de dados NÓS, revelou que a Coca-Cola é a bebida não alcoólica mais presente nas favelas brasileiras. Entre as 800 pessoas entrevistadas, 70% declararam comprar o refrigerante com frequência, índice acompanhado por um nível semelhante de recomendação.

Por que esse dado interessa a quem investe

Coca-Cola, Fanta, Pepsi e Guaraná Antarctica – todas citadas no estudo – pertencem a empresas globais ou listadas na B3 que possuem participação relevante no mercado brasileiro.

  • A força de compra nas periferias ajuda a explicar parte do faturamento desses grupos em um momento de juros elevados e crédito mais caro, fatores que costumam restringir consumo em outras faixas de renda.
  • O dado também serve de termômetro para redes de varejo, distribuidoras e fundos imobiliários de galpões, já que a logística de abastecimento nesses territórios vem ganhando investimentos específicos.

Base da pirâmide sustenta volume de vendas

Apesar da inflação de alimentos ter desacelerado nos últimos trimestres, o orçamento das famílias de menor renda continua pressionado. Números como o de 70% de penetração mostram que, mesmo sob restrição, marcas líderes conseguem se manter na cesta de compras, muitas vezes por meio de embalagens retornáveis ou promoções em atacarejos – formato de loja que cresce justamente onde o poder de compra é mais sensível ao preço.

Concorrência direta: participação das demais marcas

No recorte da pesquisa, Fanta, Pepsi e Guaraná Antarctica aparecem com taxas de compra entre 52% e 59%. Na prática, isso indica um consumo diversificado, mas ainda concentrado em multinacionais tradicionais. Para o investidor, o movimento reforça:

  • A importância de um portfólio amplo em sabores e tamanhos para capturar diferentes momentos de consumo;
  • A necessidade de canais de distribuição capilares, capazes de atender pequenos comércios de bairro e pontos informais, predominantes nas favelas;
  • A relevância de estratégias de marketing local, já que atributos como “é para todos” e “fácil de encontrar” foram os mais citados pelos entrevistados em relação à Coca-Cola.

Gênero e preferências de produto

O estudo aponta que o consumo de Coca-Cola e Fanta é mais intenso entre mulheres, enquanto homens dividem preferência entre Fanta, Pepsi e Guaraná Antarctica. Essa segmentação ajuda empresas a direcionar campanhas e mix de produto, aspecto que pode afetar margens caso haja necessidade de adaptar embalagens ou comunicação.

Relação com o cenário macro

Com a Selic ainda em dois dígitos, as decisões de investimento de grandes companhias no Brasil têm sido cautelosas. Mesmo assim, o público de menor renda permanece no radar estratégico por oferecer venda em volume, o que dilui custos fixos e pode sustentar caixa em períodos de atividade econômica moderada.

Consumo nas favelas: Coca-Cola lidera preferência e reforça peso econômico das periferias - Imagem do artigo original

Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Além disso, o câmbio mais depreciado desde 2020 encarece insumos importados, pressionando margens. Marcas líderes costumam repassar parte desses custos ao consumidor, mas o fazem de forma calibrada em regiões sensíveis a preço, reforçando a competição por eficiência operacional.

Como a pesquisa foi conduzida

  • 800 moradores de favelas em todo o país
  • Coleta online com controle de classe social, gênero, idade e local de residência
  • Margem de erro de 3,5 pontos percentuais

Os resultados confirmam uma tendência observada por redes de varejo e fintechs: a chamada “economia das favelas” movimenta bilhões de reais por ano, segundo estimativas privadas, e vem recebendo maior atenção de empresas de bens de consumo rápido (FMCG).

O que acompanhar daqui para frente

  • Movimentos de preços: repasses de custos e elasticidade da demanda em produtos de ticket baixo.
  • Expansão de embalagens retornáveis ou menores, estratégia comum para manter acessibilidade.
  • Parcerias entre fabricantes e iniciativas de mídia local, como as oferecidas pela NÓS, que podem ganhar tração em períodos de grandes eventos esportivos ou campanhas sazonais.
  • Sinais do Banco Central sobre o ciclo de queda da Selic, que podem aliviar o crédito e, indiretamente, impulsionar o consumo em regiões de menor renda.

Para o investidor que monitora empresas de bebidas, supermercados ou logística, entender o comportamento de compra das favelas ajuda a dimensionar riscos e oportunidades em um dos mercados mais populosos e dinâmicos do país.

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